Por Marco Severini — Em um movimento que altera mais uma vez o tabuleiro de influências em torno da família real britânica, a detenção de Príncipe Andrew — Andrew Mountbatten‑Windsor — no dia em que completava 66 anos marcou um novo e profundo ponto de inflexão na sua trajetória pública. A ação policial integra uma investigação sobre a suposta partilha de documentos governamentais com o financista norte‑americano Jeffrey Epstein, e apura igualmente um possível crime de abuso de cargo relacionado ao seu papel como enviado comercial britânico.
Andrew negou repetidamente qualquer conduta ilícita, qualificando a ligação a Epstein como uma “associação mal julgada”. Ainda assim, a sua reputação já vinha fragilizada pelo acordo extrajudicial com Virginia Giuffre — que o acusou de abuso quando ela era adolescente nas propriedades de Epstein ou de associados. As acusações foram por ele refutadas. Para muitos observadores, o episódio atual simboliza a queda de quem, em tempos, fora visto como o filho preferido da Rainha Elizabeth II e um veterano militar de perfil brilhante, hoje reduzido a um paria público.
Andrew Albert Christian Edward Mountbatten‑Windsor nasceu em Buckingham Palace a 19 de fevereiro de 1960 — o primeiro filho nascido de um monarca reinante britânico em mais de um século. Na origem, ocupava a segunda posição na linha de sucessão e detinha o título de príncipe do Reino Unido, mais tarde reconhecido também como duque de York.
Como parte da elite formativa da família real, frequentou Gordonstoun, na Escócia, e em 1979 ingressou na Academia Naval de Dartmouth. Na guerra das Falklands (1982), serviu embarcado na HMS Invincible como piloto de helicóptero Sea King em missões anti‑submarino e de transporte — ações pelas quais recebeu uma medalha de campanha. São precisamente esses episódios de serviço que agora integram o escopo investigativo.
Ao deixar as forças armadas, dedicou‑se às funções públicas em prol da Coroa, com ênfase na promoção do crescimento econômico e do emprego do Reino Unido. Exerceu funções como enviado comercial no exterior, atividade pela qual alguns colegas admiravam seu empenho – enquanto outros diplomatas lhe atribuíam traços de rudeza e arrogância.
Fora do papel institucional, sua vida privada foi alvo constante dos tablóides: relacionamentos com modelos e empresárias levaram à alcunha de “Air Miles Andy”, símbolo de um estilo de vida de jato e estradas longas. A longa associação com Epstein — preso em 2008 por crimes sexuais contra menores — fez ruir, gradualmente, os alicerces da sua presença pública: renúncia ao posto de embaixador comercial em 2011, acusações de abuso por Virginia Giuffre em 2015, e uma controversa entrevista à BBC em 2019 que resultou na perda de vínculos militares, patronatos reais e no uso do título de “Sua Alteza”.
Agora, a detenção por suspeita de partilha de papéis governamentais e de abuso de cargo representa mais que um episódio jurídico: é um redesenho de fronteiras invisíveis no mapa do soft power britânico. Como num lance decisivo de xadrez, a Casa de Windsor vê‑se obrigada a reagir a um movimento que escava lentamente a legitimidade de figuras outrora intocáveis. Do ponto de vista geopolítico e simbólico, trata‑se de um momento que interpela os alicerces frágeis da diplomacia pública e a gestão da autoridade monárquica em tempos de crise.
Enquanto decorrem as investigações, permanece a incerteza sobre consequências judiciais e políticas. Para a segurança institucional da Monarquia — e para a estabilidade das relações externas em que figuras como Andrew atuavam como peças de representação — este episódio pode deixar marcas duradouras na tectônica de poder britânica.






















