Por Marco Severini — Em Zagreb, o PPE (Partido Popular Europeu) desdobrou um plano político que procura alinhar respostas imediatas com uma visão estratégica de longo prazo. O encontro, convocado na capital croata e impulsionado pelo HDZ, colocou no epicentro do debate temas imediatos da UE — segurança, migrações e competitividade — ao lado de um alerta demográfico de consequências geopolíticas.
O documento adotado pelo partido reclama atenção a um problema estrutural muitas vezes relegado a segundo plano: o declínio demográfico europeu. Com taxas de fertilidade substancialmente inferiores ao nível de substituição, a Europa arrisca ver reduzidos sua vitalidade econômica, seu peso geopolítico e a coesão social que sustenta sua arquitetura política. Se as tendências atuais persistirem, projeta-se que, em 2070, a UE responderá por apenas 4% da população mundial — uma mudança tectônica no equilíbrio global.
Na minha avaliação, trata-se de um movimento que procura redesenhar fronteiras invisíveis de influência: o PPE propõe que a demografia seja tratada como uma “transição estratégica” ao lado das transições verde e digital. Para isso, pede-se uma Estratégia Europeia para a Demografia, integrada ao Semestre Europeu, às políticas de coesão e ao próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP).
Entre as medidas sugeridas figuram um parâmetro europeu de investimento para a infância, incentivos fiscais para famílias numerosas, soluções habitacionais acessíveis, uma Carta Europeia para famílias com três ou mais filhos e um selo que identifique cidades e regiões “family-friendly“. São propostas que combinam políticas públicas com instrumentos financeiros, numa tentativa de reequilibrar estrutura populacional e produtividade.
Ao lado dessa visão de longo alcance, o Partido definiu prioridades operativas para 2026 com um foco inequívoco na competitividade. O PPE reivindica avanços já obtidos em 2025 — redução de burocracia e relançamento industrial — e exige uma Europa mais ágil, capaz de simplificar normas, apoiar empresas e completar o mercado único.
Na pauta prática estão dossiers cruciais: pacote de simplificação ambiental, revisão do AI Act, fortalecimento do Chips Act, um European Biotech Act e uma reforma do GDPR que preserve a proteção dos cidadãos e, simultaneamente, alivie encargos administrativos para as empresas.
O QFP surge como peça central: o PPE pressionará pelo encerramento rápido das negociações de modo que o novo quadro reflita prioridades de crescimento, segurança e apoio aos agricultores. Em Zagreb, o ministro das Relações Exteriores e vice‑primeiro‑ministro italiano, Antonio Tajani, reiterou o papel dirigente dos cristão‑democratas, sublinhando a necessidade de uma UE mais democrática, com maior protagonismo do Parlamento Europeu, um mercado interno concluído e uma harmonização que favoreça um mercado energético único.
Este encontro em Zagreb não foi um gesto protocolar. Foi um movimento deliberado no tabuleiro político europeu: consolidar liderança, alinhar alicerces e projetar políticas que respondam tanto à urgência da segurança quanto às mudanças lentas, porém inexoráveis, do mapa demográfico. A estabilidade do futuro europeu depende de quem souber conjugar resposta imediata e planejamento estratégico — e, neste xadrez, o PPE move-se para definir algumas das próximas jogadas.






















