Por Marco Severini — Num movimento decisivo no tabuleiro político ibérico, as eleições presidenciais em Portugal confirmaram as previsões quanto aos dois nomes que disputarão o segundo turno de 8 de fevereiro: o socialista António José Seguro e o populista do Chega, André Ventura. Contudo, o resultado das urnas redesenhou a geografia do embate: Seguro saiu na frente com 31,14% (1.752.325 votos), enquanto Ventura alcançou 23,48% (1.321.387 votos), aquém das expectativas das sondagens.
Em terceiro lugar ficou João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, com 15,99%, seguido do almirante independente Gouveia e Melo, responsável pela gestão da vacinação contra a Covid, com 12,34%. Surpreendentemente, o social-democrata apoiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, Marques Mendes, ficou em quinto, com 12,09%, numa derrota que simboliza as rachaduras internas do centro-direita.
Para além do mérito prático limitado que uma eleição presidencial tem face ao legislativo, o significado simbólico é claro: o Partido Socialista (PS), que havia caído ao terceiro lugar nas legislativas de 2025, demonstra capacidade de recuperação — um redesign dos alicerces da sua base política. Seguro, perfil pragmático e de centro-esquerda, construiu uma campanha centrada nos problemas concretos do país: um serviço de saúde em tensão e o elevado custo de vida que corrói rendas e poupanças.
Ventura, por sua vez, apostou na agenda identitária e migratória, lançando o slogan inspirado em modelos europeus: “primeiro os portugueses”. Após o segundo lugar, o líder do Chega afirmou, com tom de comando de batalha, que o resultado é um chamado para unificar a direita contra a vitória socialista: “Este voto é um alerta para a direita. Temos de nos unir para impedir que o novo Presidente seja um socialista. O país conferiu-me a liderança da direita”.
As reações são de complexa cartografia política. O secretário-geral do Partido Comunista, Paulo Raimundo, e o Bloco de Esquerda anunciaram apoio a Seguro, sugerindo um alinhamento à esquerda para o segundo turno. Mas a vitória final exigirá que Seguro atraia eleitores moderados e indecisos que rejeitam o extremismo reacionário representado por Ventura — um jogo de xadrez onde cada peão centrista pode decidir o xeque-mate.
O primeiro-ministro Luís Montenegro mantém uma posição ambígua, optando pela prudência estratégica em vez de um compromisso público que poderia fragmentar ainda mais o seu campo. A próxima etapa, portanto, será um duelo de narrativa: de um lado, a promessa de estabilidade e inclusão; do outro, a proposta de ruptura identitária que busca remodelar zonas de influência eleitoral.
Na leitura geopolítica, este pleito revela a tectônica de poder em Portugal: o PS restaurando-se como referência nacional e a emergência de formações populistas que continuam a reconfigurar fronteiras invisíveis entre representantes tradicionais e novos atores. O segundo turno será menos uma prova de forças e mais um exercício de construção de coalizões — e, atendendo ao mapa de votos, cada movimento contará.






















