Por Marco Severini, La Via Italia — Em um movimento que reconfigura a tectônica de poder no Ártico, a Groenlândia reaparece nas atenções internacionais. A ilha — a maior do planeta, com cerca de 2,1 milhões de km² e aproximadamente 56 mil habitantes — voltou ao foco por combinação de interesses estratégicos, pressões diplomáticas e manobras econômicas.
Demograficamente, a população é majoritariamente indígena: cerca de 90% são inuit, falantes do groenlandês, enquanto a principal minoria é de origem dinamarquesa, compondo o restante do tecido social. Pequenas comunidades europeias, asiáticas e norte-americanas também estão presentes.
Administrativamente, a Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca, que engloba também a Dinamarca continental e as ilhas Faroe. A ilha foi colônia da Coroa Norueguesa até 1814 e, desde então, entrou no domínio dinamarquês — tornando-se parte do reino em 1953 e recebendo um estatuto de autogoverno em 1979. Ainda hoje, o monarca dinamarquês permanece como chefe de Estado.
No xadrez contemporâneo, a atenção do ex-presidente Donald Trump sobre a ilha pode ser entendida como um movimento com múltiplas camadas. Oficialmente, Trump mencionou a possibilidade de impor tarifas de 10% — e, adiantando escalada para 25% a partir de 1º de junho — a países europeus que enviaram contingentes militares ao Ártico, em missão conhecida como “Arctic Endurance“. O anúncio foi acompanhado de uma retórica dura: quem não se alinha ao plano dos EUA, segundo ele, estaria sujeito a medidas econômicas.
Por trás dessa retórica há, entretanto, uma lógica de Realpolitik. O interesse em adquirir ou assegurar influência na Groenlândia não é apenas simbólico: a ilha ocupa uma posição estratégica para sistemas avançados de defesa antimíssil — referidos por Trump na expressão Golden Dome — onde radares e interceptores teriam valor decisivo para a segurança do Atlântico Norte e do espaço aéreo polar. Ter bases ou garantias de acesso ali seria um movimento decisivo no tabuleiro militar e tecnológico.
Além disso, Washington enxerga concorrentes globais: China e Rússia são frequentemente citadas como potências interessadas em ampliar sua presença no Ártico, seja por rotas marítimas emergentes, seja por recursos naturais e plataformas de vigilância. Esse cenário transforma a ilha em um nó crítico de influência, com fronteiras visíveis — e outras invisíveis — sendo desenhadas no gelo.
Ao mesmo tempo, não se pode reduzir as ações de Trump a um mero desejo de aquisição territorial. Como negociante experiente, ele tem historicamente utilizado declarações públicas e pressões econômicas para forçar interlocutores a uma mesa de negociação. As tarifas e as ameaças públicas podem muito bem ser ferramentas para reconfigurar termos, testar reações e, finalmente, alcançar um acordo que beneficie interesses norte-americanos sem necessariamente culminar em transferência de soberania.
Para a Europa e para o Reino da Dinamarca, a questão exige equilíbrio: defender a integridade do estatuto de autonomia da ilha, proteger a população inuit e, ao mesmo tempo, gerir a emergência de um novo eixo de influência no Ártico. A resposta europeia — incluindo o envio de militares para exercícios e patrulhas — insere-se num jogo de demonstrar presença e dissuadir avanços unilaterais.
Em termos práticos, a disputa pela Groenlândia materializa duas verdades do século XXI: primeiro, que territórios longínquos retomam valor estratégico à medida que a tecnologia e o clima redesenham rotas e capacidades; segundo, que as grandes potências empregam uma mistura de diplomacia pública, pressão econômica e mobilização militar para reordenar zonas de influência. É um lance no tabuleiro, onde cada peça — militar, econômica ou diplomática — visa consolidar uma diferença de poder a favor de quem se movimenta com mais visão de longo prazo.
Concluo que a questão groenlandesa exemplifica a delicada arquitetura das alianças contemporâneas: alicerces frágeis que só resistirão se houver negociação hábil, respeito às populações locais e uma clara compreensão que o Ártico não é apenas um palco de ambição, mas um espaço que exige gestão multinacional.





















