Por Marco Severini — Em um movimento que revela mais do que uma simples opção estética, cadeias hoteleiras internacionais vêm progressivamente eliminando a porta do banheiro dos quartos. O fenômeno, documentado em reportagem do Wall Street Journal, transformou-se num teste de tensão entre minimalismo fiscal e expectativas básicas de privacidade dos hóspedes.
Ao abrir a porta de muitos quartos hoje, o viajante encontra paredes reduzidas ao essencial: painéis de vidro fosco parcialmente opacos que não garantem isolamento acústico nem proteção adequada contra odores. Esse deslocamento arquitetônico é fruto de um cálculo financeiro simples — e impiedoso. Após a pandemia, as margens operacionais das redes de médio padrão sofreram erosão: menos viagens a trabalho, maiores encargos com pessoal e pressão sobre custos de materiais e energia. Para a diretoria financeira, cada item que represente manutenção contínua passa a ser alvo de corte; como sintetiza Lisa Chervinsky, da Universidade de Cornell, “uma porta pode se tornar um custo permanente”.
Uma porta tradicional implica gastos com materiais, ferragens, manutenção e até iluminação suplementar em ambientes internos sem janelas. Sua remoção reduz as despesas operacionais e simplifica processos de manutenção — um movimento que se alinha à lógica da eficiência contábil, mas que redefine o contrato tácito entre hóspede e estabelecimento.
Reage a isso um movimento difuso e organizado nas redes: a campanha BringBackDoors (“Tragam de volta as portas dos banheiros”), que reúne relatos de consumidores e solicita aos viajantes que denunciem hotéis que adotaram o formato. A influenciadora digital Sadie Lowell já catalogou mais de 500 hotéis sem portas, avaliando graus de privacidade e aconselhando atenção ao reservar.
O embate revela um deslocamento mais amplo nos alicerces da hospitalidade. Num tabuleiro de xadrez, trata-se de um movimento que economiza uma peça de cada vez, na esperança de preservar o rei das margens; contudo, cria brechas na confiança do cliente — um capital intangível que, uma vez corroído, é difícil de recompor. Hoteleiros apostam que alguns consumidores aceitarão o sacrifício em troca de preço; a mobilização contrária aposta no valor duradouro da privacidade como diferencial competitivo.
Há também um elemento de sinalização cultural: hotéis que removem portas invocam um estilo contemporâneo e descomplicado, mas pagam o preço da percepção de vulnerabilidade. A tectônica de poder entre operadores e clientes pode, portanto, ser redesenhada por preferências reveladas — avaliações on-line, campanhas virais e escolhas de reservas tendem a punir ou premiar opções que mexam na intimidade do hóspede.
Como analista de geopolítica e estratégia, observo que decisões aparentemente domésticas abrem frentes de debate sobre padrões de consumo e governança de serviços. A arquitetura do quarto é, em última instância, também arquitetura de confiança. Cabe aos gestores hoteleiros equilibrar economia e reputação, sob pena de verem suas reservas sofrerem no longo prazo.
Fonte: Wall Street Journal; entrevistas e levantamentos públicos. Reportagem e análise por Marco Severini, Espresso Italia.
















