Em um pronunciamento sóbrio e estrategicamente calculado durante a apresentação da Política Ártica italiana na Villa Madama, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, descartou qualquer compromisso que implique em um contingente militar simbólico no Ártico. Em termos diretos, questionou o propósito de enviar “15 soldados” à Groenlândia, ironizando que a medida soaria como “o início de uma piada” se aplicada de modo fragmentado por várias nações.
Na visão do ministro, o desafio colocado pela nova corrida ao Ártico exige uma abordagem coordenada, que privilegie a sinergia entre administrações e agências nacionais, e não iniciativas pontuais e descoordenadas. “Não se movem os ministérios, mas o país”, disse Crosetto, sublinhando que a força italiana reside na integração entre Defesa, pesquisa e diplomacia — pilares que, segundo ele, constituem o alicerce da ação italiana nos foros multilaterais.
Ao traçar o mapa estratégico desta nova fronteira geopolítica, Crosetto definiu o Ártico como uma “terra de ninguém” que demanda, com urgência, a construção de regras capazes de impedir a formação de novas fissuras num sistema internacional já excessivamente fragmentado. Para o ministro, as democracias ocidentais devem manter uma presença coordenada e responsável, preferencialmente pensada em termos de NATO e ONU, em vez de ações isoladas que diluem influências e recursos.
Um dos pontos centrais de sua intervenção foi a transformação das rotas marítimas. Crosetto alertou que o derretimento das camadas de gelo pode deslocar entre 40% e 50% do tráfego atualmente concentrado no Canal de Suez, redimensionando fluxos comerciais, cadeias de suprimentos e, por consequência, a geografia da segurança global. Esse redirecionamento implicará efeitos diretos sobre o Mediterrâneo, os portos italianos e a economia nacional, exigindo um posicionamento estratégico bem delineado por parte da Itália.
Dessa perspectiva, o ministro defendeu que o país deve manter um presídio no Ártico em termos econômicos, comerciais, científicos e, quando necessário, militares — porém sem confundir presença com tokenismo. O aumento de recursos destinados à Defesa foi explicitamente apresentado como “um investimento no País”: não apenas em equipamento, mas na capacidade de pesquisa, diplomacia e projeção internacional de longa duração.
Ao evocar o cenário regional, Crosetto também lembrou a proximidade da Rússia ao novo teatro de interesses e a necessidade de equilibrar firmeza com canais de diálogo que evitem escaladas desnecessárias. Em sua análise, o que está em jogo não é apenas um mosaico de rotas e recursos naturais, mas o redesenho de frentes de influência — uma verdadeira tectônica de poder que exige instrumentos políticos e militares calibrados, e não gestos simbólicos.
Concluiu afirmando que a Itália está pronta a ser um parceiro confiável na construção de normas e na cooperação internacional no Ártico, contribuindo com capacidades navais, aéreas e terrestres integradas às demais políticas públicas. A mensagem é clara: o futuro daquele quadrante exige visão de estado, coordenação e investimento, não improvisação.






















