Peter Mandelson, figura que moldou a face contemporânea do Partido Trabalhista britânico, foi detido nesta segunda-feira pela polícia metropolitana de Londres por supostas relações opacas com o falecido financiador Jeffrey Epstein. Agentes à paisana compareceram à residência do ex-ministro no centro de Londres: nenhum aparato público, apenas uma condução discreta até Scotland Yard, onde foi levado para interrogatório.
A operação marca mais um movimento decisivo num tabuleiro de poder já fragilizado. Mandelson, 72 anos, homem de mundo e artífice do que se chamou de New Labour, parecia resistir às intempéries políticas ao longo de décadas. No entanto, a divulgação progressiva dos dossiês sobre Epstein — cuja primeira tranche veio a público em setembro do ano passado — revelou mensagens e transações que tornaram inevitável a queda de um novo castelo de cartas.
Entre as páginas divulgadas havia um bilhete enviado por Mandelson ao aniversariante de 50 anos em 2003, no qual qualificava Epstein como seu “melhor amigo” e “um homem inteligente e arguto”. Mais comprometedor, um e-mail de 2008, pouco antes de Epstein se declarar culpado na Flórida por tráfico de menores, em que Mandelson escreve: “Penso muito em ti, sinto-me impotente e estou zangado pelo que aconteceu” e o exorta “a lutar”. Essas linhas custaram-lhe, primeiro, o cargo de embaixador em Washington e, depois, agora, um lugar na lista de investigados.
O primeiro-ministro Keir Starmer já havia tomado a decisão dolorosa de afastá-lo quando as revelações iniciais abalarem Downing Street; mas o movimento não foi suficiente para estancar a ressaca política que se seguiu meses depois. A leitura estratégica é clara: a administração preferiu cortar um vínculo incômodo para tentar minimizar danos maiores, mas não contava com a profundidade do material que viria à tona.
Ao longo de sua carreira, Mandelson enfrentou outras tempestades que pareciam mostrar um padrão de quedas e ressurgimentos. Em 1999, enquanto secretário para a Indústria, foi envolvido num caso ligado à compra de uma casa em Notting Hill financiada parcialmente por um empréstimo sem juros de 373.000 libras de Geoffrey Robinson, colega de gabinete e empresário então sob investigação. Em janeiro de 2001, teve de renunciar após acusações de interferência para acelerar um pedido de passaporte para a Irlanda do Norte. Ainda assim, retornou ao primeiro plano: entre 2004 e 2008 serviu como comissário europeu para o Comércio.
Figura central na vitória de Tony Blair em 1997, responsável por redesenhar a imagem do partido e cunhar — em essência — o rótulo New Labour, Mandelson não deixou de contar influência nas hostes trabalhistas mesmo após converter-se em lobista e cofundar a consultoria Global Counsel, com sede em Londres. Foi esta influência que, em dezembro de 2024, o conduziu a uma nomeação como embaixador pelo próprio círculo de Starmer.
Hoje, a detenção expõe não só a vulnerabilidade de um indivíduo, mas a fragilidade dos alicerces diplomáticos e políticos que sustentam redes de poder. Para observadores de longo curso, trata-se de um movimento sintomático: a tectônica de influência está sendo rearranjada, e velhos eixos — formados por favores, lealdades e compromissos — são pesadamente escrutinados. No xadrez da política internacional, uma peça considerada resiliente foi retirada do tabuleiro; resta ver que novos movimentos esse vácuo provocará dentro do partido e além de suas fronteiras.
As investigações prosseguem. Mandelson permanecerá sob custódia enquanto a polícia examina transferências financeiras, mensagens e possíveis responsabilidades penais relacionadas às associações com Jeffrey Epstein. O caso continuará sendo um termômetro da capacidade do Labour de administrar crises e preservar a estabilidade de sua liderança num cenário em que reputações e estratégias se confundem com riscos geopolíticos.





















