Por Marco Severini — La Via Italia
Um movimento coletivo de cientistas americanos lançou, nas últimas horas, um contraponto firme às ambições presidenciais dos Estados Unidos sobre a Groenlândia. Mais de 200 pesquisadores — muitos dos quais atuam diretamente em estudos no arquipélago ártico — assinaram uma carta aberta publicada no site da revista Nature, declarando solidariedade e gratidão ao povo groenlandês e rejeitando qualquer projeto que trate a ilha como mercadoria geopolítica.
Na voz da primeira signatária, Yarrow Axford, pesquisadora da Northwestern University, emergiu um tom que mistura laço pessoal e princípio ético: a comunidade científica norte-americana que trabalha na região afirma ter «amigos, colegas e colaboradores na Groenlândia» e sente o dever de manifestar apoio público. A carta, segundo seus autores, serve tanto para assegurar aos groenlandeses que não estão sós quanto para estimular vozes críticas dentro dos Estados Unidos.
Os pesquisadores condenam explicitamente a atitude do presidente Trump, que expressou repetidamente interesse em adquirir ou assumir o controle da ilha. «— Nos opomos firmemente à posição agressiva do presidente Trump em relação à Groenlândia —», dizem os autores da carta, acrescentando que «não é algo que se possa comprar ou tomar: a Groenlândia pertence ao seu povo».
O episódio, embora circunscrito ao Ártico, revela camadas mais profundas da atual tectônica de poder. Em Copenhague, o tema foi tratado com reserva e firmeza: líderes dinamarqueses — citados como Nielsen e Frederiksen — responderam antes de uma reunião na Casa Branca com um posicionamento claro: «A Groenlândia não está à venda». A frase traduz, em linguagem diplomática, um reduto de soberania e um alinhamento histórico entre a ilha e a Dinamarca.
Do lado groenlandês, vozes locais também se pronunciaram. O governo da ilha emitiu comunicado dizendo que os Estados Unidos teriam «reiterado o desejo de tomar posse da Groenlândia», mas que tal cenário não poderia ser aceito de forma alguma. Na capital Nuuk, o único pároco católico, padre Tomaž Majcen, foi ouvido pelo Giornale d’Italia e sintetizou a sensibilidade comunitária: «Esta terra pertence a quem nela vive; não é uma peça de xadrez a ser deslocada por interesses externos».
No plano institucional, a Casa Branca declarou que o presidente Trump não definiu uma data para qualquer eventual ação, mas que a questão permanece entre as prioridades americanas. Essa declaração, mais do que uma agenda, funciona como um movimento no tabuleiro: um sinal de intenção que impõe resposta estratégica dos demais atores — Dinamarca, autoridades groenlandesas e a comunidade científica internacional.
Enquanto a retórica política avança, a mobilização dos pesquisadores assume papel de bastião civil e epistemológico. Não se trata apenas de um apelo emotivo, mas de um posicionamento que expõe os alicerces frágeis da diplomacia quando confrontada a interesses estratégicos — recursos naturais, posições geoestratégicas e rotas de navegação no Ártico.
Na perspectiva que prefiro — a do observador de alta tabuleiro — esta crise potencial oferece uma lição: territórios e comunidades que viveram por séculos em contato íntimo com seu ambiente não se acomodam ao cálculo frio de negócios ou trocas de poder. A reação coordenada de cientistas, atores locais e aliados diplomáticos demonstra que o centro de gravidade da legitimidade política permanece onde sempre esteve: na soberania e na voz dos povos afetados.





















