Por Marco Severini — Uma pesquisa do instituto Midgam para a Channel 12 revela uma mudança tectônica no mapa eleitoral de Israel: entre os novos eleitores — jovens judeus de 18 a 21 anos — 75% declaram-se alinhados à direita, um apoio superior ao observado entre eleitores mais veteranos. O levantamento atribui parte dessa guinada a campanhas de indotrinamento e propaganda direcionadas ao público jovem nas últimas campanhas políticas.
O resultado consolida, no curto prazo, o bloco político liderado por Benjamin Netanyahu e pelo Likud, já considerado pelo debate público como o governo mais à direita da história do país. Entre os novos eleitores, o Likud aparece como força predominante, seguido por formações religiosas e nacionalistas. Num confronto direto entre Netanyahu e Naftali Bennett pela chefia do governo, 49% dos novos eleitores dão preferência ao atual primeiro-ministro.
O levantamento também chama atenção para o crescimento da religiosidade e do sentimento nacionalista nessa coorte: cerca de 80% dos novos eleitores dizem acreditar em Deus ou numa ordem superior. Apenas 5% se declaram à esquerda. Para o Midgam, esses indicadores sinalizam a emergência de uma geração que pode vir a ser, nas palavras do instituto, “a mais fanática na história do país”, rompendo com a expectativa de setores liberais de que os jovens tenderiam a posições mais moderadas.
Este fenômeno não ocorre num vácuo. No cenário estratégico regional, Israel enfrenta tensões que continuam a redesenhar equilíbrios — a reportagem menciona o conflito em Gaza e a escalada contra o Irã, enquanto vozes públicas como a do primeiro‑ministro em entrevistas internacionais e de aliados estrangeiros contribuem para a narrativa.
Em entrevista à Fox News, Netanyahu procurou enquadrar as operações como instrumento de paz e reiterou críticas a Teerã, atribuindo ao Irã responsabilidade por uma larga parte da instabilidade regional. Esse discurso, que exalta aliados como Donald Trump, alimenta tanto o apoio interno como as tensões externas.
O clima político doméstico inclui ainda declarações controversas de figuras estrangeiras — citada na matéria está a afirmação do ex-governador americano Mike Huckabee sobre os “confins bíblicos” — e reações de líderes oposicionistas como Yair Lapid, que continuam a debater limites e fronteiras no discurso público.
Outro eixo de transformação, destacado pela reportagem, é a intersecção entre tecnologia e guerra: o uso de drones, inteligência artificial e ferramentas de simulação (referido no caso Anthropic) tem redefinido práticas militares e o cálculo estratégico entre Washington, Tel Aviv e atores tecnológicos privados.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: a consolidação eleitoral de uma base jovem mais religiosa e nacionalista altera os alicerces da diplomacia interna e externa de Israel. Se esta geração mantiver sua trajetória, as próximas décadas poderão ver um reposicionamento das prioridades de segurança, dos espaços civis e das fronteiras — tanto físicas quanto simbólicas — do país.
Como analista, observo que a combinação de propaganda direcionada, um ambiente de conflito persistente e a modernização das ferramentas de guerra cria condições favoráveis a um endurecimento político. Trata‑se de um movimento que exige atenção dos estrategistas e dos arquitetos da política externa: as peças mudam de lugar no tabuleiro e os riscos de instabilidade regional se ampliam se não houver contrapesos institucionais e diplomáticos.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.





















