Por Marco Severini — Em um movimento que altera perceptivelmente o mapa estratégico americano, o Pentágono revisou ontem sua abordagem em relação à China, tratando-a como concorrente geoestratégico, porém privilegiando canais de comunicação e redução de tensões. A nova diretriz foi desenhada em consonância com o documento da Casa Branca publicado no fim do ano passado e visa estabelecer uma estabilidade estratégica no espaço do Indo-Pacífico.
O documento emergiu num momento delicado: o presidente Trump prepara um encontro esperado para abril com o líder chinês Xi Jinping, enquanto a administração tenta diminuir a pressão sobre Taiwan. Segundo análise do Wall Street Journal citada pelo Pentágono, a primazia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental continua sendo uma prioridade, e o planejamento de longo prazo da administração busca reduzir o envolvimento militar norte-americano em regiões como a Europa, a Península Coreana e o Oriente Médio.
Como está escrito no texto oficial, “à medida que as forças dos EUA se concentram na defesa do território nacional e no Indo-Pacífico, nossos aliados e parceiros em outros lugares deverão assumir a responsabilidade primária por sua própria defesa, com apoio crucial, porém mais limitado, das forças americanas.” A frase revela um reposicionamento claro: deslocar recursos e recalibrar compromissos, sem abandonar o papel de dissuasão.
O contraste com a estratégia de 2018 é nítido. Naquele documento, a China era caracterizada de forma dura, classificada como potência “revisionista” que, juntamente com a Rússia, buscava um tipo de veto informal sobre as decisões econômicas, diplomáticas e de segurança de outras nações. A nova orientação do Pentágono, ao contrário, sublinha o interesse em abrir e ampliar canais militares de comunicação com as forças chinesas e reduzir incidentes que possam escalar.
O objetivo declarado é alcançar “uma paz digna, em condições favoráveis aos americanos, mas que a China também possa aceitar e com a qual possa conviver”. É uma linguagem de realismo diplomático: não se trata de anular a concorrência, mas de administrar o risco e preservar a estabilidade — um movimento cuidadoso no tabuleiro onde se redesenham, sem ruído excessivo, fronteiras de influência.
A Estratégia de Defesa Nacional, publicada a cada quatro anos para orientar decisões sobre despachos de tropas e desenvolvimento de armamentos, incorpora temas já adiantados na estratégia de segurança nacional de dezembro. Naquele documento, a Casa Branca criticou duramente certos líderes europeus e reassegurou o foco americano no hemisfério ocidental e no Pacífico.
Embora o novo documento do Pentágono não mencione explicitamente Taiwan, afirma que as forças americanas “erguerão uma sólida defesa ao longo da Primeira Cadeia de Ilhas”, sequência que inclui Taiwan, o Japão e as Filipinas. É uma delimitação estratégica que pretende criar uma camada de dissuasão e reduzir a possibilidade de coerção.
É relevante notar a ambivalência do presidente Trump em relação ao uso da força por Taiwan: diferentemente de seu antecessor, não declarou prontidão explícita para intervir militarmente, mas sua administração aprovou um pacote de armamentos de 11 bilhões de dólares para a ilha. Grande parte dos gastos do Pentágono e da corrida por tecnologias avançadas continua sendo justificada como ferramenta de dissuasão contra tentativas chinesas de controle sobre Taiwan ou de pressão sobre aliados dos EUA.
Na prática, o documento representa um ajuste de alicerces: mover peças no tabuleiro estratégico sem provocar rupturas abertas, buscando estabilidade em um teatro onde as tensões podem se transformar rapidamente em confrontos indesejados. A lição é clara para diplomatas e estrategistas: a tectônica de poder exige tanto firmeza quanto canais de diálogo bem cimentados.






















