Por Marco Severini — Movimentos militares e bombardeios foram registrados ao longo da fronteira entre Paquistão e Afeganistão, com foco no estratégico posto de passagem de Torkham e ataques que atingiram também as cidades de Cabul e Kandahar. O episódio marca uma nova e perigosa fase na tensão transfronteiriça entre os dois vizinhos.
Jornalistas no local relataram explosões vindas do lado afegão por volta das 9h30, hora local (7h em Roma), antes da retomada dos confrontos. Disparos e bombardeios foram ouvidos em sequência, enquanto a passagem de Torkham permaneceu aberta para afegãos que retornavam em massa do Paquistão, apesar de o controle terrestre ter sido amplamente restringido após os choques de outubro.
Durante a noite, o campo de Omari, que abriga pessoas repatriadas nas imediações do posto fronteiriço, foi atingido, forçando famílias a fugirem entre tendas e trilhas de poeira. “Crianças, mulheres e idosos corriam”, relatou Gander Khan, um repatriado de 65 anos, que citou ferimentos em ao menos três mulheres.
Fontes locais indicam que forças afegãs lançaram uma ofensiva no setor fronteiriço contra tropas paquistanesas, operação que os governantes talibãs descrevem como represália a ataques aéreos do Paquistão ocorridos dias antes. Em resposta, aeronaves paquistanesas realizaram ataques que atingiram a capital Cabul e a cidade-chave de Kandahar, escalando o confronto para além de pontos isolados.
No plano político, o primeiro‑ministro Shehbaz Sharif declarou, por meio do perfil oficial do governo no X, que as forças armadas paquistanesas possuem capacidade de “esmagar” qualquer ambição agressiva. “A nação inteira está ao lado das forças armadas paquistanesas”, escreveu Sharif.
Em tom ainda mais duro, o ministro da Defesa Khawaja Asif qualificou a situação como uma “guerra aberta” contra o governo talibã: “Nossa paciência atingiu o limite. Agora é uma guerra aberta entre nós e vocês”, redigiu Asif no X, sinalizando ruptura retórica e política que pode preceder novas operações militares.
Do ponto de vista estratégico, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro regional: a reativação de linhas de atrito que antes se mantinham contidas. O golpe no campo de Omari e os bombardeios sobre centros urbanos revelam não apenas uma resposta militar imediata, mas um redesenho das fronteiras invisíveis da influência na região — uma pequena tectônica de poder com risco de amplificação.
As implicações são múltiplas. Além do custo humanitário imediato — deslocamento de civis, feridos e impacto sobre populações já vulneráveis —, há o risco de contágio político: aliados regionais serão pressionados a se posicionar, linhas de comunicação diplomática podem se quebrar e a estabilidade dos alicerces da diplomacia regional ficará ainda mais frágil.
Num cenário em que cada movimento é interpretado como jogada estratégica, cabe aos atores internacionais mais maduros — e às instituições multilaterais — tentar recuperar canais que evitem que o conflito se transforme em confronto aberto e sustentado. A hora exige tato diplomático e leitura geopolítica precisa, para que o tabuleiro não sofra perdas irreversíveis.
Palavras-chave: Paquistão, Afeganistão, Torkham, Cabul, Kandahar, guerra aberta, talibãos.






















