Por Marco Severini — Em um movimento que mistura luto público e cálculo diplomático, os dois pandas do zoológico de Ueno, em Tóquio, despediram-se dos visitantes e partirão em breve para a China. Lei Lei e Xiao Xiao, os únicos exemplares no Japão, simbolizam desde 1972 a chamada diplomacia dos pandas, um instrumento suave de influência através do qual Pequim tem tecido laços bilaterais com capitais ao redor do mundo.
Para muitos cidadãos, a cena foi de emoção — famílias, entusiastas e os 4.400 ganhadores de uma loteria on-line que revezaram-se para observar os animais — fotografados por emissoras com olhares marejados enquanto os jovens mamíferos mastigavam bambu. A ausência dos pandas no país pela primeira vez em meio século é mais do que uma perda zoológica: é um sinal visual na fachada do diálogo entre duas das maiores economias asiáticas.
O retorno antecipado dos animais foi anunciado após o pronunciamento da premiê conservadora Sanae Takaichi, que sugeriu a possibilidade de intervenção japonesa em caso de ataque a Taiwan. A declaração suscitou forte reação de Pequim, que considera a ilha como parte de seu território. O episódio ilustra o modo como posturas estratégicas, ainda que formuladas em territórios de soberania e defesa, reverberam nos terrenos mais insuspeitos — como o cuidado com espécies-símbolo, que funcionam como peões sensíveis no tabuleiro diplomático.
“Acredito que ver os pandas ajuda a criar um vínculo também com a China, por isso gostaria muito que eles retornassem ao Japão”, disse o general Takahashi, de 39 anos, que visitou o zoológico com a esposa e a filha. A fala traduz o anseio público por normalidade das relações, contrapondo-se ao gesto estatal que, neste momento, optou pela retirada.
O professor Masaki Ienaga, especialista em relações internacionais da Tokyo Woman’s Christian University, declarou que a saída dos animais pode não ter sido motivada exclusivamente por razões políticas, mas que o eventual retorno serviria como indicador claro de reaproximação bilateral. Em termos estratégicos, tratar-se-ia de um movimento reversível no tabuleiro — um retorno que apenas se executa quando as condições de segurança e confiança forem restabelecidas.
Do ponto de vista da Realpolitik, a situação revela alicerces frágeis na diplomacia entre Tóquio e Pequim: a tectônica de poder regional está sendo recalibrada, e símbolos culturais e científicos passam a ser parte dessa recalibração. O despique sobre Taiwan escancara que decisões sobre defesa e alinhamentos estratégicos têm reflexos imediatos na cooperação civil, ambiental e científica.
Se, no futuro, os pandas voltarem ao Japão, tal gesto será interpretado não apenas como retorno de um par de animais carismáticos, mas como um movimento calculado de reconciliação que sinalizará um lento, mas palpável, redesenho das fronteiras invisíveis da influência entre Tóquio e Pequim.
Assina: Marco Severini, analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia.






















