Em resposta ao crescente receio em torno da inteligência artificial, a ONU anunciou a criação de uma comissão dedicada ao controle humano sobre sistemas autônomos. A iniciativa foi apresentada pelo secretário-geral Guterres durante o World AI Summit, encerrado hoje em Nova Deli, e reúne 40 cientistas internacionais com a missão de transformar o princípio do controle humano em uma realidade técnica, e não em mero slogan.
“A ciência informa, mas os seres humanos decidem”, declarou Guterres, sublinhando que a governança da inteligência artificial precisa basear-se em evidências e não em pânico. A nova comissão terá como atribuição ampliar o entendimento global sobre capacidades e limites das tecnologias de IA, além de avaliar seus efeitos concretos nas economias e nas sociedades. O objetivo é oferecer a todos os países, independentemente de suas capacidades tecnológicas, a mesma clareza sobre riscos e oportunidades.
Na fala que marcou o encerramento do evento, o secretário-geral advertiu que a inovação em IA avança “à velocidade da luz” e, por isso, supera hoje a nossa capacidade coletiva de compreendê-la e regulá-la. “Se queremos que a IA sirva à humanidade, nossa política não pode se apoiar em conjecturas, barulho ou desinformação. Precisamos de fatos nos quais acreditar e que possamos compartilhar”, afirmou, pedindo «menos clamore e menos medo» e «mais fatos e provas». Em termos práticos, a comissão deverá indicar medidas de segurança mais inteligentes e proporcionais aos riscos identificados.
O anúncio ocorre no contexto do quarto World AI Summit, que reuniu líderes políticos e representantes da elite tecnológica para examinar o impacto socioeconômico da automação e dos sistemas cognitivos. Do encontro, espera-se ainda uma declaração final conjunta que sintetize compromissos e orientações multilaterais.
Como analista, enxergo esse movimento como um movimento decisivo no tabuleiro global: a criação da comissão é um reconhecimento explícito de que as estruturas tradicionais da governança internacional estão sendo testadas pela tectônica de poder tecnológica. Ao convocar 40 especialistas, a ONU busca criar um corpo de conhecimento compartilhado, um alicerce técnico capaz de sustentar normas internacionais e políticas públicas coerentes.
Há, contudo, desafios estruturais. A lacuna de capacidades entre nações avançadas e em desenvolvimento pode transformar boas recomendações em prescrições de difícil implementação. A equidade do acesso à informação técnica e a capacidade de aplicar salvaguardas serão cruciais para que o princípio do controle humano não se torne apenas retórica em fóruns diplomáticos. Em outras palavras: sem mecanismos de transferência de tecnologia e apoio institucional, o redesenho de fronteiras invisíveis no domínio digital poderá aprofundar assimetrias já existentes.
Em suma, a iniciativa da ONU representa um passo de arquitetura institucional: busca transformar incerteza em evidência, e evidência em políticas práticas. Resta agora observar se as recomendações da comissão serão traduzidas em instrumentos robustos, aplicáveis globalmente, que coloquem o humano de volta no centro das decisões tecnológicas — sem retardar inovações necessárias nem permitir que a velocidade do desenvolvimento tecnológico crie vazios de governança.
Marco Severini — Espresso Italia






















