Por Marco Severini — Desde a invasão russa, quase quatro anos atrás, a discussão sobre a realização de eleições na Ucrânia deslocou-se do terreno retórico para um tabuleiro complexo de decisões estratégicas. Fontes citadas pelo Financial Times indicam que Kiev estaria avaliando a hipótese de convocar eleições presidenciais nos próximos três meses. Contudo, transformar essa hipótese em prática exige vencer um conjunto de barreiras legais, logísticas e políticas que hoje parecem robustas como fortificações.
O primeiro e mais imediato obstáculo é a lei marcial imposta por Kiev em fevereiro de 2022, quando as forças russas atravessaram a fronteira. Em termos jurídicos, a vigência da lei marcial proíbe formalmente a realização de eleições. O presidente Zelensky repetiu que a Ucrânia poderá realizar votações após a assinatura de um acordo de paz, mas também manifestou, recentemente, abertura para antecipá-las como parte de um plano promovido pelos Estados Unidos para pôr fim ao conflito. Ao mesmo tempo, deixou claro que qualquer acordo que implique cedência de território a Moscou deveria ser submetido a um referendo.
Há consenso interno de que nem um referendo nem as eleições podem ocorrer sob a vigência da lei marcial. No ano passado, Kiev formou um grupo de trabalho com políticos e militares para estudar como viabilizar uma transição eleitoral depois da revogação da medida. Esse esforço técnico é necessário, mas não suficiente: a realidade do campo de batalha impõe limitações práticas severas.
Os combates contínuos ao longo de uma extensa linha de frente tornam a logística do voto um dilema. Bombardeios diários afetam cidades próximas ao fronte, enquanto milhões de cidadãos se encontraram deslocados — tanto no interior quanto fora do país — e outros milhões vivem sob ocupação russa. Não há solução simples para permitir que centenas de milhares de soldados em serviço de linha de frente exerçam o direito de votar sem comprometer a segurança ou violar dispositivos legais ucranianos.
Politicamente, Moscou procura transformar a questão em vantagem narrativa: o Kremlin alegou desde o início que a sua invasão visava derrubar o governo de Zelensky e, hoje, afirma que o presidente é ilegítimo porque seu mandato teria expirado em 2024. A Rússia propõe que, se a Ucrânia realizar eleições, os combates poderiam ser suspensos — mas sob condição explícita de que também votem ucranianos residentes em território russo e nas áreas sob controle de Moscou. Trata-se de um pedido que complica ainda mais a legitimidade e a integridade do processo.
Do lado ocidental, a Casa Branca e atores internacionais vêm incentivando um calendário que inclua eleições como componente de um eventual acordo. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, também defende que as eleições façam parte do acordo que busca mediar. Entretanto, pesquisas de opinião, como a do Kyiv International Institute of Sociology (Kiis), mostram cautela na sociedade: apenas 10% dos ucranianos apoiavam a realização de eleições antes de um cessar-fogo, segundo levantamento do final do ano passado.
Em termos de arquitetura da decisão, esta é uma posição de xadrez em que cada movimento exige previsão de repercussões imediatas e de longo prazo. Realizar eleições sob fogo, com vastas populações deslocadas e sem controle territorial uniforme, significaria abalar os alicerces frágeis da diplomacia e abrir espaço para um redesenho de fronteiras invisíveis. A alternativa — postergar até um acordo verificável — preserva a integridade institucional, mas prolonga a incerteza política e internacional: uma tensão típica da tectônica de poder entre soberania e segurança.
Em suma, a Ucrânia enfrenta um dilema estratégico: antecipar um movimento que poderia encurtar o conflito, mas arriscar a legitimidade do processo; ou condicionar as eleições a um cessar-fogo e a garantias territoriais, mantendo intactos os princípios jurídicos e o apoio doméstico. A decisão será, no fundo, um teste de capacidade de Estado para alinhar instrumentos legais, militares e diplomáticos num único, decisivo movimento no tabuleiro.






















