Por Marco Severini — Em uma análise que desenha os contornos de um movimento decisivo no tabuleiro do Oriente Médio, o pesquisador israelense Kobi Michael, do Institute for National Security Studies (Inss) da Universidade de Tel Aviv e analista do Misgav Institute, traça o objetivo final da campanha militar coordenada por Israel e Estados Unidos contra o Irã. Em contato com a imprensa, Michael sublinha que, apesar das aspirações de mudança política, a prioridade prática permanece a neutralização da ameaça estratégica iraniana.
Na arquitetura da ação militar atual — que combina ataques cirúrgicos às capacidades nucleares e balísticas de Teerã — a questão central é se o desfecho perseguido é um mudança de regime ou a simples incapacidade definitiva do Irã de projetar poder. Michael é direto: o resultado desejado por Tel Aviv e Washington é, sim, a substituição do regime, mas esse desfecho não se impõe apenas por laços externos. Depende, antes de tudo, da capacidade da sociedade iraniana e de lideranças internas de organizar uma oposição estruturada sobre as ruínas, ou pelo menos sobre o enfraquecimento, do aparelho de poder.
Do ponto de vista estratégico, portanto, o objetivo mais plausível e realizável da campanha é negar a Teerã as capacidades que configuram uma ameaça existencial a Israel e aos aliados regionais: em primeiro lugar, o potencial nuclear, em seguida o arsenal balístico. A intenção é fragilizar o regime de forma duradoura, criando condições nas quais uma transição interna, se ocorrer, o faça por forças iranianas, não por imposição externa — um princípio de realpolitik que evita os perigos de vácuos de poder construídos por atores estrangeiros.
Michael também destaca a importância do papel das monarquias do Golfo: se Teerã ampliar ataques contra Emirados, Qatar ou Arábia Saudita, essas capitais podem deslocar-se do papel de coadjuvantes para protagonistas, integrando uma coalizão regional com Estados Unidos e Israel. Esse movimento transformaria a atual escalada em uma tectônica de poder, redesenhando fronteiras de influência de modo mais explícito e ampliando o risco de conflito sistêmico.
Sobre a estrutura do regime iraniano, a análise é pragmática e cartográfica: os Pasdaran (Guardas Revolucionários) construíram, ao longo de décadas, um sistema paralelo de poder com economia autônoma e influência política profunda. Ainda assim, com mais de 90 milhões de habitantes, o Irã possui uma base social ampla fora dos circuitos directos do regime. A questão é a disponibilidade de uma liderança eficaz e organizada capaz de preencher uma eventual lacuna. Michael aposta que parte dessa liderança deveria emergir dos próprios quadros institucionais iranianos, o que reforça a ideia de que um regime change sustentável depende tanto de fatores internos quanto da erosão militar e econômica promovida por ações externas.
Em suma, a campanha liderada por Israel e Estados Unidos tem como meta primordial a eliminação da capacidade estratégica do Irã — uma jogada para proteger o Estado-nação israelense e manter a estabilidade regional à luz de um risco nuclear e balístico. A eventual substituição do regime é um cenário desejável, mas contingente: a verdadeira virada no tabuleiro virá se e quando forças internas iranianas conseguirem organizar-se sob uma liderança que aproveite o enfraquecimento do aparelho estatal.
Como analista e diplomata da informação, observo que este é um momento em que a arquitetura da paz e da guerra no Oriente Médio está sendo recalculada de forma meticulosa. As peças se movem segundo interesses estratégicos de longa data; quem controla a iniciativa agora poderá definir os alicerces de segurança para a próxima década.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















