Por Marco Severini — Em entrevista ao popular podcast de Brian Tyler Cohen, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama abordou, com a calma e a precisão de quem lê o tabuleiro de atores e interesses, o recente episódio que reacendeu o debate sobre o decoro na vida pública norte-americana: uma montagem de teor racista, publicada e depois removida na plataforma Truth, que representava ele e a esposa, Michelle, como macacos.
O vídeo, publicado no dia 5 de fevereiro e alvo de críticas transversais de todos os partidos, foi prontamente classificado como racista. Sem citar nominalmente o atual ocupante da Casa Branca, Obama descreveu o caso como sintoma de um desgaste mais amplo. Observou que, para “a grande maioria dos americanos”, esse tipo de comportamento é motivo de profunda preocupação e de “distracção” do que realmente importa no governo e na vida pública.
Com a serenidade de quem já conduziu negociações em cenários de alta tensão, o ex-presidente observou que, apesar do espetáculo ora imposto pelas redes sociais e por aparições televisivas, ainda há espaços — e pessoas — que acreditam no decoro, na gentileza e no respeito pela investidura pública. “Continuo a viajar, a encontrar gente, e a ver que estes alicerces não foram totalmente corroídos”, declarou. Porém, lamentou o que definiu como uma “espécie de espetáculo clownesco” que normaliza insultos e degrada o discurso público.
Obama fez questão de apontar uma consequência política: a percepção pública sobre esses episódios pode ter impacto concreto nas urnas. Citando manifestações ocorridas em locais como Minneapolis como expressão de uma resposta cívica diferente, ele afirmou que “é isso que importa” — a capacidade do eleitorado de distinguir os limites aceitáveis da conduta pública. Em sua previsão, mensagens desse teor podem penalizar os republicanos alinhados ao ex-presidente Trump nas eleições de meio de mandato, porque a reação final “virá do povo americano”.
Enquanto analista, observo que este pronunciamento funciona em dois níveis estratégicos. Por um lado, reafirma a posição moral e simbólica de um antigo titular do poder, restaurando um padrão de comportamento público que funciona como norma de referência. Por outro, lança uma peça no tabuleiro político: sem ataques diretos, Obama mapeia a narrativa adversária, deixando que o contraste entre decoro e grotesco se encarregue de deslocar o eixo de influência nas preferências eleitorais.
No plano mais amplo, o episódio é sintomático da atual tectônica de poder — em que as fronteiras invisíveis do debate público estão sendo redesenhadas pela polarização e pela mecânica das plataformas digitais. A pergunta final, que ressoa como um movimento decisivo no xadrez da política americana, permanece: a sociedade civil e as instituições vão recompor os alicerces frágeis da diplomacia doméstica ou permitirão que a normalização do desrespeito se instale?
Assino com a convicção de quem acompanha o compasso das grandes decisões: as próximas jogadas serão definidas nas urnas e, antes disso, nos canais discretos onde se constrói o consenso. Obama lançou sua peça; o tabuleiro agora espera as respostas do eleitorado.


















