Por Marco Severini — Em um movimento que revela muito mais do que um problema técnico local, a capital da Groenlândia, Nuuk, ficou por diversas horas em completo blackout na noite anterior. O evento, causado por ventos fortes persistentes, afetou diretamente os cerca de 20 mil habitantes e levantou questões sobre a resiliência das infraestruturas críticas da ilha no contexto de uma tectônica de poder crescente no Ártico.
Segundo comunicado da empresa estatal de serviços públicos, a Nukissiorfiit, a cidade, cuja matriz energética é sustentada principalmente por uma central hidrelétrica, ficou sem fornecimento elétrico a partir das 22h30. O restabelecimento começou apenas cerca de três horas depois e, mesmo assim, foi parcial: diversas áreas permaneceram sem energia por mais tempo.
Além da interrupção no abastecimento elétrico, registrou-se perda de conectividade. O monitoramento da internet realizado por NetBlocks confirmou a degradação dos serviços de rede durante o episódio, dificultando comunicações essenciais e o fluxo de informação local e internacional.
Em termos práticos, trata-se de um problema técnico desencadeado por condições meteorológicas severas. Em termos estratégicos, porém, o episódio funciona como um alerta: a dependência concentrada em uma fonte energética e a exposição das redes de comunicação transformam interrupções meteorológicas em riscos com consequências sociais e geopolíticas.
O blackout ocorreu poucos dias após o governo local distribuir um folheto orientando moradores sobre preparação para uma eventual crise vinculada à sugestão pública de Donald Trump de considerar a anexação da ilha, antes da definição de um acordo “quadro” sobre o território autônomo dentro do Reino da Dinamarca. A coincidência temporal entre a divulgação das instruções de civil preparedness e a falha de infraestrutura confere à ocorrência um significado simbólico: a fragilidade dos alicerces materiais da população torna-se, também, um elemento de política.
Como analista, observo aqui um movimento de xadrez em várias dimensões. No tabuleiro imediato, trata-se de manutenção e operação de equipamentos frente a eventos naturais extremos. No tabuleiro estratégico, é um lembrete de que as infraestruturas do Ártico — energia, comunicações, transporte — são peças que, quando deslocadas, provocam repercussões regionais e atraem atenção dos grandes atores internacionais. A Groenlândia não é apenas uma mancha no mapa: é um conjunto de alicerces frágeis cuja robustez determinará a capacidade local de resistir a choques e a capacidade dos atores externos de projetar influência.
As autoridades locais e a Nukissiorfiit devem agora conduzir investigações técnicas e rever planos de contingência, enquanto governos e operadores internacionais observam o episódio como um dado na equação maior do Ártico. A lição prática é nítida: reforçar a diversidade energética, aumentar redundâncias nas redes de comunicação e aprimorar planos de emergência. Em linguagem cartográfica, trata-se de redesenhar fronteiras invisíveis entre segurança civil e segurança estratégica.
Nuuk voltou gradualmente à normalidade, mas a noite em que a capital esteve às escuras permanece como um sinal de alerta — uma jogada que exige resposta ponderada e de longo prazo, antes que novos ventos tornem inevitáveis movimentos mais drásticos no tabuleiro.






















