Marco Severini — Em um movimento que expõe as contradições simbólicas do presente, uma imagem capturada durante uma manifestação na Nova Zelândia mostrou um homem de origem Maori com tatuagens faciais tradicionais segurando uma bandeira de Israel, enquanto ostentava um tatuagem em forma de suástica na perna. A foto, divulgada nas redes sociais pela conta @the_thinking_great_ape, rapidamente se tornou viral e desencadeou um amplo debate político, cultural e identitário.
Segundo relatos de ativistas e observadores locais, o homem é um cidadão neozelandês que teria sido integrante da gangue conhecida como Mongrel Mob, grupo notório em Aotearoa. Em seguida, deixou a vida criminosa e afirmou ter se convertido ao cristianismo evangélico. Atualmente, seu nome tem sido associado a movimentos como MAN UP e à Destiny Church, fundada pelo polêmico pastor Brian Tamaki, figura central do conservadorismo religioso neozelandês.
A manifestação, organizada por grupos cristãos maori descritos como tendo posições abertas contra muçulmanos, tornou-se palco de um flagrante paradoxo: um símbolo do nazismo — a suástica — exibido por alguém declaradamente pró-Israel e atuante em protestos contra comunidades muçulmanas. Esse contraste lançou novas luzes sobre a confusão ideológica que permeia certas redes de ação política, em que emblemas e lemas se sobrepõem sem coerência histórica ou semântica.
Do ponto de vista analítico, trata-se de um episódio que representa um movimento decisivo no tabuleiro simbólico global: símbolos que, historicamente, carregam sentidos antagônicos — como a luta contra o antissemitismo e a figura da suástica — se encontram, por circunstância e dissonância ideológica, no mesmo palco de protesto. A agenda pública, aqui, revela alicerces frágeis da diplomacia cultural e da identidade coletiva.
Nas redes, a reação foi imediata e multifacetada. Há quem aponte a presença como simples contradição pessoal, outros como sinal de uma estratégia de choque político. Observadores lembram que a apropriação de símbolos extremistas em contextos diversos não apaga seus significados históricos; antes, pode distorcê-los e ampliar o conflito simbólico entre comunidades.
Para os analistas de política e relações interculturais, o caso impõe uma reflexão mais ampla: em uma era de múltiplas frentes de mobilização, a coerência simbólica torna-se indispensável para quem pretende influir no discurso público. Sem isso, os movimentos perdem a clareza de propósito e tornam-se vulneráveis a contra-ataques e a desgastes estratégicos.
Em suma, a imagem do homem Maori com a bandeira de Israel e a suástica tatuada na perna não é apenas um fato isolado destinado a indignar. É um sintoma. Um sinal de tectônica de poder em que identidades, crenças e símbolos se deslocam, redimensionando fronteiras invisíveis e exigindo respostas serenas e fundamentadas da sociedade civil, das lideranças religiosas e das autoridades públicas.
O debate, por ora, segue aberto: perguntas sobre responsabilidade, memória histórica e legitimidade simbólica permanecem no centro da discussão — e convidam a uma reanálise paciente, longe do clamor imediato das redes.





















