Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com frieza calculada, as linhas de força no tabuleiro fiscal da cidade, o novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, apresentou a proposta de uma taxa extra para os ricos como instrumento para reduzir o déficit público. Durante audiência em Albany, diante da comissão do Senado estadual responsável pelo orçamento de 2026, Mamdani pediu um acréscimo de 2% no imposto de renda pessoal para os nova-iorquinos que auferem mais de US$ 1 milhão por ano, acompanhado por um aumento da alíquota do imposto sobre sociedades no Estado.
O prefeito — identificado como socialista democrático — destacou que, graças a uma série de medidas de contenção e à utilização de reservas, o déficit da cidade foi reduzido de US$ 12 bilhões para US$ 7 bilhões. Ainda assim, na sua avaliação, Nova York permanece “à beira de um precipício”. A combinação de cortes e recalibragem das receitas, disse, não é suficiente para restabelecer a margem fiscal necessária para garantir serviços urbanos essenciais.
“Acredito que as pessoas e as empresas mais rentáveis deveriam contribuir um pouco mais para que todos possam viver com dignidade”, declarou Mamdani, que anunciou a apresentação do orçamento preliminar da cidade na próxima terça-feira. Segundo suas estimativas, um aumento de 2% na alíquota para os mais ricos cobriria quase metade da lacuna orçamentária.
Em campanha, Mamdani já havia defendido a elevação do imposto sobre sociedades de Nova York — atualmente em 7,25% — para algo próximo de 11,5%, uma proposta que agora volta ao centro do debate. A governadora do Estado, Kathy Hochul, que detém poder decisório para aprovar alterações tributárias estaduais, afirmou reiteradamente sua oposição a elevações de impostos.
Do ponto de vista geopolítico e de estratégia interna, trata-se de um lance de alto risco e de grande simbolismo. A proposta funciona como um movimento de xadrez: procura arrecadar recursos imediatos, mas simultaneamente mobiliza adversários políticos e interesses financeiros poderosos que podem reconfigurar alianças locais e estaduais. Em termos arquitetônicos da política, é um reforço dos alicerces fiscais em face a uma tectônica de poder que tende a pressionar as finanças municipais.
A controvérsia é previsível. Críticos afirmam que a medida poderia estimular a evasão fiscal, deslocamentos de base tributável e impactos indesejados sobre investimentos. Defensores sustentam que a progressividade adicional é uma correção necessária para preservar serviços públicos e a coesão social numa metrópole com desigualdades extremas.
Resta ver como se comportará o jogo legislativo em Albany, onde o equilíbrio entre exigências locais e a visão do Executivo estadual — personificada por Hochul — será decisivo. A proposta de Mamdani, embora embutida em cálculo técnico, é também um gesto político que mide forças: testa o alcance das políticas redistributivas num centro financeiro global sem perder de vista a urgência de fechar as contas.
Na próxima semana, com a apresentação formal do orçamento preliminar, os próximos movimentos ficarão mais claros. Será então possível avaliar não só o efeito contábil das medidas, mas o impacto estratégico na correlação de forças entre a prefeitura, o Estado e os polos de influência econômica que gravitam em torno de Nova York.






















