Por Marco Severini — Em um episódio que sublinha a fragilidade dos alicerces da segurança na região, homens armados sequestraram mais de 150 cristãos durante ataques simultâneos a três igrejas no noroeste da Nigéria. O incidente ocorreu no domingo em Kurmin Wali, comunidade da área de Kajuru, no estado de Kaduna, quando cultos e missas estavam em curso.
As comunidades atingidas incluem uma igreja da denominação Evangelical Church Winning All (ECWA), um templo da comunhão Cherubim and Seraphim e uma igreja católica. A informação foi prestada à Associated Press pelo legislador estadual Usman Danlami Stingo, que representa a região no parlamento de Kaduna.
Segundo Stingo, o balanço inicial apontava 177 pessoas desaparecidas; 11 retornaram posteriormente aos seus lares, deixando 168 pessoas ainda sob suspeita de sequestro. Autoridades locais e familiares continuam a buscar informações sobre o paradeiro das vítimas e a natureza precisa dos autores dos ataques permanece, por ora, sem confirmação pública.
O episódio se insere em um quadro de insegurança persistente no interior da Nigéria, onde a tectônica de poder entre atores armados, redes criminosas e estruturas estatais tem desenhado um mapa de violência recorrente. O presidente Bola Tinubu havia declarado, no final do ano passado, estado de emergência nacional para tratar da crise de segurança — uma medida que, até aqui, mostrou-se insuficiente para prevenir agressões em pontos sensíveis como lugares de culto.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que atinge não apenas vítimas individuais, mas o próprio tecido social: igrejas, como instituições comunitárias, funcionam como centros de coesão e sua violação representa um ataque aos alicerces da diplomacia local e da convivência inter-religiosa. A repetição desses episódios pode provocar um redesenho de fronteiras invisíveis entre comunidades e aumentar a polarização.
Fontes oficiais de segurança ainda não atribuíram a autoria a grupos específicos. Em Kaduna, episódios anteriores envolveram tanto conflitos étnico-religiosos quanto ações de grupos armados classificados genericamente como “bandits” ou milícias locais, o que exemplifica a complexidade do tabuleiro de poder na região.
Familiares das vítimas e líderes comunitários clamam por maior presença do Estado e por operações de resgate coordenadas. Observadores internacionais e diplomatas acompanham com atenção, pois o agravamento da insegurança interna na Nigéria tem implicações para a estabilidade regional e para as rotas migratórias e comerciais do Sahel ao Golfo da Guiné.
Enquanto as buscas prosseguem, o caso em Kurmin Wali é mais uma advertência da necessidade de soluções integradas: resposta militar, inteligência civil, programas de reconciliação e reconstrução dos vínculos comunitários. No jogo geopolítico atual, cada ataque dessa natureza é um lance que pode redefinir alianças locais e recalibrar prioridades de segurança no país mais populoso da África.






















