Nicolás Maduro não pode ser compreendido sem o legado de Hugo Chávez, o comandante que dominou a política venezuelana de 1999 até sua morte em 2013. Chávez, forjado no fracasso do golpe de 1992, projetou-se como líder do chamado Socialismo do século XXI — uma mistura de nacionalismo bolivariano, referências à revolução cubana e um discurso fortemente antagônico aos Estados Unidos. Para parte significativa da população, representou promessa de inclusão; para opositores, uma deriva populista e autoritária.
É nesse ambiente que surge a figura de Maduro, nascido em 1962, ex-motorista e líder sindical que ascendeu politicamente com o apoio do próprio Chávez. Militarizou sua trajetória política como ministro das Relações Exteriores entre 2006 e 2013 e ganhou a confiança de Chávez a ponto de ser anunciado, em 2012, como sucessor político. A nomeação oficial ocorreu durante os últimos pronunciamentos do presidente moribundo: uma decisão “ferma e irrevogável”, destinada a transferir o comando do chavismo.
Desde então, porém, o percurso de Nicolás Maduro foi marcado por erosão de apoio e aprofundamento da crise econômica. A escassez de bens essenciais e a hiperinflação produziram sofrimento social prolongado, enquanto o Executivo respondeu concentrando poderes: indicações de magistrados fiéis ao governo para neutralizar um Parlamento adverso e reformas constitucionais que reconfiguraram o sistema político, na prática convertendo a Venezuela em uma autocracia cada vez mais isolada no cenário internacional.
O período Maduro acumulou restrições severas às liberdades de imprensa e expressão, prisões de opositores e detenções políticas de estrangeiros usadas como moeda de barganha diplomática. Entre os casos notórios está o do cooperante italiano Alberto Trentini, detido pelo regime em novembro de 2024, episódio que ilustra a prática de capturar cidadãos estrangeiros para ganhos estratégicos.
Em 2020, uma comissão da ONU apontou o governo por possíveis crimes contra a humanidade, enquanto a justiça dos Estados Unidos formalizou acusações que ligam altos membros do regime a esquemas de narcotráfico. Essas ações levaram à inclusão de Maduro em listas de procurados com recompensas financeiras — inicialmente 15 milhões de dólares, posteriormente elevadas pela administração Biden para 25 milhões.
As eleições de 28 de julho de 2024 confirmaram, oficialmente, a vitória de Maduro com 51,2% dos votos, contra 44% do opositor Edmundo González Urrutia. A oposição, porém, rejeitou o resultado, denunciando fraudes e irregularidades: observadores foram impedidos de acompanhar a totalidade do processo e o governo se recusou a divulgar detalhamento dos votos. A contestação desencadeou protestos, que foram reprimidos com força, ampliando ainda mais o fosso entre o Executivo e setores da sociedade civil.
Hoje, a Venezuela de Maduro vive plenamente as contradições do projeto iniciado por Chávez: um discurso de redistribuição que ruiu diante do colapso econômico; um sistema político que se pretende revolucionário, mas que consolidou mecanismos de poder autoritários; e uma geopolítica que isolou o país, restando-lhe aliados com regimes igualmente antagônicos às democracias ocidentais, como Rússia, Irã e Coreia do Norte.
Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram uma trajetória de declínio institucional que converteu promessas em rotina de escassez, repressão e delegitimização internacional. A realidade traduzida em cifras, prisões e decisões institucionais define hoje o legado político de Chávez e a metamorfose de Maduro: de sucessor natural a gestor de uma ordem cada vez mais autoritária.































