Por Marco Severini — O próximo 5 de fevereiro marca um ponto de inflexão no tabuleiro estratégico global: expira o tratado New START, o último instrumento bilateral que ainda impõe limites ao despliegue de ogivas e vetores nucleares entre a Rússia e os Estados Unidos. Sem um acordo de prorrogação ou substituição — para o qual atualmente não há sinais concretos — o mundo voltará a conviver, pela primeira vez desde 1972, com nenhuma limitação formal entre as duas potências nucleares.
Assinado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev, o New START entrou em vigor em 2011 e tinha validade de dez anos, com possibilidade de uma única prorrogação — medida já utilizada em 2021. Desde então, o tratado funcionou como um alicerce institucional que não apenas fixava tetos quantitativos ao armamento estratégico, mas também estabelecia um regime de inspeções e intercâmbio de informações que reduzia o risco de mal-entendidos e surpresas estratégicas.
Em setembro de 2025, o presidente Vladimir Putin propôs uma solução temporária: manter as restrições relativas a mísseis e testes por mais um ano, tempo suficiente para negociar um novo acordo. A Casa Branca, sob a administração de Donald Trump, manteve silêncio formal; em entrevista ao New York Times, Trump chegou a dizer, em termos pragmáticos, que “se expirar, expira. Faremos um acordo melhor”. O tom revela prioridades; Washington busca um pacto mais amplo, que inclua a China, ao mesmo tempo em que evita que o dossiê se funda com o processo de paz relacionado à Ucrânia.
A recusa chinesa em entrar nas negociações é compreensível do ponto de vista de Pequim: seu arsenal é ainda substancialmente menor que o de Moscou e Washington. Estimativas públicas situam a China em torno de 600 ogivas, número que o Pentágono acredita poder ultrapassar 1.000 até 2030 — uma ascensão rápida, que altera a tectônica de poder na região asiática e complica qualquer arquitetura de controle de armamentos de alcance multilateral.
A importância prática do New START transcende a contagem de ogivas: as inspeções e os intercâmbios de dados são mecanismos de confiança mútua e de inteligência aberta que, nas palavras de Darya Dolzikova, do Royal United Services Institute, permitem apreender “o que a outra parte pensa, suas preocupações e motivações”. Pavel Podvig, pesquisador sênior do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa sobre Desarmamento, ressalta que a verificabilidade é um pilar do regime: sem inspeções robustas, a mera declaração de limites perde substância.
As inspeções já haviam sido interrompidas em 2020 em razão da pandemia de Covid-19 e a deterioração posterior das relações, acelerada pela guerra na Ucrânia iniciada por Moscou, agravou o impasse. Em agosto de 2022, a Rússia impediu a realização de inspeções norte-americanas em seu território, minando ainda mais a arquitetura bilateral.
O cenário que se desenha é um movimento decisivo no tabuleiro estratégico: sem um tratado, ambos os lados recuperam margem para modernizar e expandir seus arsenais estratégicos sem limites formais, ao mesmo tempo em que desaparecem canais de verificação que desanuviavam suspeitas. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis entre as grandes potências — um processo que exigirá diplomacia paciente, arquitetura institucional renovada e, sobretudo, vontade política para restaurar mecanismos de previsibilidade.
Como analista, insisto que a ausência de um acordo não determina necessariamente um salto automático em uma corrida descontrolada; determina, antes, a volta a um jogo de incentivos mais opaco, onde a percepção e a sinalização passam a pesar ainda mais. A comunidade internacional deve, portanto, olhar para esta data não apenas como uma perda administrativa, mas como um momento em que as estruturas de estabilidade exigirão ser reconstruídas — com precisão de arquiteto e a visão estratégica de quem joga com vista ao tabuleiro inteiro.






















