Por Marco Severini — A poucos dias da expiração formal do New START, o Kremlin emite um alerta seco: a globalidade pode entrar em «uma situação mais perigosa» se o tratado não for mantido. O acordo, que constitui o último pilar jurídico do controle de arsenais estratégicos entre Rússia e Estados Unidos, vence em 5 de fevereiro, deixando sobre a mesa uma proposta russa de prorrogação por um ano e a contraproposta americana de negociar um novo pacto.
Do lado russo, o tom é calculado e de clara pressão diplomática. O vice‑ministro Sergei Ryabkov afirmou que «nos últimos dias antes do término formal do New START não faremos apelos formais aos americanos», lembrando que Moscou apresentou sua posição «com antecedência e tempo suficiente para reflexão». «A falta de resposta é, por si só, uma resposta», sublinhou, enfatizando a necessidade de «mudanças positivas e amplas» no modo como os Estados Unidos abordam as relações bilaterais para restabelecer qualquer diálogo substancial sobre estabilidade estratégica.
Paralelamente, o porta‑voz do Cremlino, Dmitry Peskov, advertiu que após a data limite «surgirá uma lacuna no quadro jurídico da estabilidade estratégica», lacuna essa que dificilmente favoreceria a Rússia, os EUA ou o próprio equilíbrio internacional. O diagnóstico é direto: sem o tratado em vigor, os alicerces frágeis da diplomacia de controle de armamentos ficam expostos, abrindo espaço para um redesenho — invisível porém perigoso — da tectônica de poder.
Breve recordatório do conteúdo do New START: assinado em Praga, em 2010, pelos então presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev, o acordo fixa limites de 1.550 ogivas e 700 sistemas de lançamento — mísseis balísticos intercontinentais, mísseis balísticos lançados por submarinos e bombardeiros estratégicos — para cada parte. Em vigor desde 5 de fevereiro de 2011, o tratado foi prorrogado em 2016 e 2021. Estima‑se que EUA e Rússia detenham cerca de 90% do arsenal nuclear mundial, o que torna o fim do pacto uma questão de segurança coletiva.
Importante nuance de verificação: embora a Rússia tenha formalmente suspendido sua participação no tratado em março de 2023, os limites nele previstos, na prática, continuaram a ser observados — porém sem os mecanismos plenos de inspeção e verificação. As inspeções já haviam sido interrompidas durante a pandemia de Covid‑19 e, no contexto da guerra na Ucrânia, as garantias mútuas de transparência perderam robustez.
Do ponto de vista geopolítico, o impasse atua como um movimento decisivo no tabuleiro: a oferta russa de estender por um ano funciona como um lance de contenção, enquanto a proposta americana de negociar um novo acordo é, possivelmente, uma tentativa de redesenhar regras em termos favoráveis ao atual equilíbrio tecnológico e político. Trata‑se de um jogo estratégico de longo curso, onde a prioridade — ou sua ausência — em manter mecanismos auditáveis poderá definir os próximos anos na arquitetura de segurança internacional.
As consequências práticas de uma lacuna jurídica são previsíveis e inquietantes: aumento da incerteza estratégica, aceleração de programas de modernização de arsenais, erosão dos canais de comunicação militar e diplomática, e um ambiente propício a erros de cálculo. Sem instrumentos de verificação, a confiança entra em declínio: cada movimento adversário assume o difícil papel de potencial ameaça.
Minha leitura diplomática é clara e contida — como quem abre uma nova frente em um tabuleiro cuidadosamente calculado: manter restrições verificáveis e mensuráveis deve ser a prioridade urgente, mesmo quando a política externa parece desenhar novos e distintos interesses. Uma prorrogação técnica de curto prazo poderia manter os alicerces, enquanto negociações sérias e gradativas reconstruiriam um arcabouço mais moderno e adequado à nova realidade tecnológica.
Em suma, o New START não é apenas um tratado legal; é a última peça visível de uma arquitetura que previne o retrocesso nuclear. Sua expiração sem substituto verificável não será um acontecimento isolado, mas um movimento que poderá alterar, de forma duradoura, a estabilidade estratégica global.






















