New START, o último tratado que limita as armas nucleares entre EUA e Rússia, expira hoje. A eventual falta de um mecanismo limitador marcaria, pela primeira vez em mais de meio século, a remoção de controles formais sobre os dois maiores arsenais estratégicos do planeta — uma mudança na tectônica de poder global que poderia reabrir a corrida armamentista.
Nas últimas horas, a perspectiva de renovação parecia improvável, alimentando receios de que os alicerces da diplomacia nuclear se fragilizassem. O secretário-geral da ONU, António Guterres, qualificou a data como “um momento grave para a paz e a segurança internacionais” e apelou para que EUA e Rússia “alcancem rapidamente um acordo” que restaure um quadro de estabilidade.
Na manhã norte-americana, entretanto, a reportagem investigativa Axios reacendeu uma tênue esperança: três fontes teriam confirmado que um entendimento preliminar estaria próximo de ser finalizado para manter, na prática, os limites do New START por mais seis meses. Segundo o veículo, o tratado expirará formalmente hoje, sem uma prorrogação legal formalizada imediatamente, mas as partes teriam concordado em “operar de boa-fé” e iniciar diálogos sobre eventuais atualizações.
Essa convergência teria ocorrido à margem das conversações sobre a Ucrânia em Abu Dhabi, onde, segundo relatos, delegações teriam negociado uma lista de conduta operacional. À pergunta sobre a notícia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, respondeu em tom cauteloso: “Se houver uma resposta construtiva, estamos dispostos a dialogar” — uma frase que soa como um movimento posicional em um tabuleiro de xadrez, preservando opções e evitando compromissos definitivos.
Uma confirmação parcial veio através de comunicado do United States European Command, que informou que os EUA e a Federação Russa concordaram em restabelecer um diálogo militar de alto nível, canal suspendido no outono de 2021. O general Alexus Grynkewich, comandante do Comando Europeu dos Estados Unidos, foi instruído a manter conversações com o chefe do Estado‑Maior russo, o general Valery Gerasimov, com o objetivo explícito de evitar erros de avaliação e meios para prevenir uma escalada involuntária.
Historicamente, o presidente russo Vladimir Putin já havia se declarado aberto a respeitar os limites do tratado por mais um ano caso Washington fizesse o mesmo. No entanto, o presidente norte-americano Donald Trump condicionou qualquer prorrogação à adesão da China, um interlocutor que Pequim rejeita por ora. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, reiterou que as forças nucleares chinesas “não são comparáveis” às dos Estados Unidos e da Rússia, e que a China “não participará das negociações de desarmamento nesta fase”. Oficialmente, Pequim afirma manter cerca de 600 ogivas, frente às aproximadamente 4.000 declaradas por Washington e Moscou.
O cenário permanece tenso: mesmo um acordo informal para estender os controles por seis meses — sem a formalização jurídica imediata — é uma solução de curto prazo que apenas posterga um problema estratégico mais amplo. A ausência de um tratado plenamente vigente abre possibilidades de modernização acelerada e expansão das capacidades, alterando o mapa de dissuasão global.
Como analista, observo esse episódio como um movimento decisivo no tabuleiro internacional: as capitais tentam, por ora, evitar uma escalada aberta enquanto preservam espaço de manobra para negociar termos futuros. A estabilidade futura dependerá não só de cláusulas técnicas, mas da arquitetura política que sustente confiança suficiente para desenhar regras duradouras entre potências com arsenais assimétricos e prioridades divergentes.
Em suma, a diplomacia opera agora em dois planos: o imediatismo operativo — evitar erros e manter canais de comunicação — e o estratégico — redesenhar fronteiras invisíveis de poder que possam impedir uma nova corrida nuclear. A diferença entre um impasse e uma solução duradoura reside na capacidade de transformar essa janela de seis meses em um processo credível de governança nuclear multilateral.






















