Washington — A visita-relâmpago de Netanyahu a Washington não alcançou o rompimento que Tel Aviv desejava. O encontro, inicialmente previsto por duas horas e que se estendeu além do esperado, foi um claro indicativo de um confronto intenso entre aliados sobre a melhor forma de enfrentar o Irã.
Na pauta israelense esteve a tentativa de ampliar o âmbito das negociações com Teerã: não apenas o centro delicado do programa nuclear, mas também o arsenal de mísseis balísticos e as atividades regionais iranianas. Para a República Islâmica, exigir concessões sobre a sua capacidade balística equivaleria a uma perda de capacidade de dissuasão inaceitável — uma erosão estratégica que a colocaria mais vulnerável frente a um adversário como Israel, que considera Teerã sua principal ameaça existencial.
Contudo, a mensagem que emergiu da Casa Branca foi de contenção. Trump deixou claro que, por ora, prefere manter o foco no capítulo nuclear do impasse. Em termos práticos, isto significa que a negociação nuclear sobrevive, ainda que desequilibrada pelas pressões externas. A decisão simboliza um movimento calculado no tabuleiro de poder: aceitar a continuidade das conversações nucleares é, neste momento, o menor dos riscos comparado aos danos imprevisíveis de um confronto direto.
O discurso público do presidente utilizou o consagrado termo trumpiano “tremendous” para qualificar as relações com Israel — um adjetivo que no seu léxico oscila entre aprovação e alerta contido. Essa ambiguidade linguística reflete uma tectônica de poder em que as vozes mais beligerantes do espectro político norte-americano, do senador Marco Rubio a figuras do círculo próximo a Israel, exercem forte pressão. Ainda assim, o cálculo presidencial pondera custos geopolíticos e econômicos elevados, especialmente em ano eleitoral.
A escolha simbólica de data também não foi neutra: a visita ocorreu no 11 de fevereiro, aniversário da Revolução Islâmica de 1979, um dia de significação intensa em Teerã. No diplomacia do Oriente Médio, o simbolismo muitas vezes pesa tanto quanto as palavras oficiais. Em Israel, a radicalização interna amplifica a tentação por um ataque preventivo, visto por parcelas relevantes da opinião pública como uma saída legítima para neutralizar a ameaça iraniana. Críticos como Gideon Levy sublinham que, para muitos, persuadir Washington a abrir hostilidades seria uma vitória, enquanto aceitar um acordo poderia ser encarado como derrota.
Nos Estados Unidos, porém, existe um ceticismo difundido quanto à abertura de nova frente bélica. Duas décadas de conflitos prolongados deixaram eleitorado e elites institucionais mais reticentes. Nesse ponto, a administração se vê dividida entre a pressão dos aliados e o interesse nacional de evitar um desgaste estratégico e econômico difícil de mensurar. O resultado foi uma contenção estratégica: não rejeição à ação, mas adiamento e limitação do escopo de exigências.
O episódio ilustra bem um princípio da diplomacia contemporânea: movimentos decisivos no tabuleiro raramente são unilaterais. Eles dependem de um equilíbrio de riscos, legitimidade e oportunidade. A preservação do foco no nuclear mantém abertos canais de diálogo e reduz a probabilidade imediata de escalada, ao mesmo tempo em que deixa em aberto a possibilidade de futuras manobras que redesenhem as fronteiras invisíveis da influência regional.
Como analista, observo que a administração Trump optou por um caminho que protege, por ora, os alicerces frágeis da diplomacia, evitando um choque cujas consequências poderiam reverberar em todo o Mediterrâneo e além. A ambiguidade calculada pode ser entendida como uma estratégia de contenção: manter a pressão política sem precipitar operações militares que perturbem a estabilidade do sistema. Contudo, o risco permanece — e o tabuleiro de xadrez do Médio Oriente continua em movimento.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise de geopolítica e estratégia internacional.






















