Por Marco Severini — Em um movimento que combina gesto público e cálculo estratégico, a junta militar do Myanmar anunciou a libertação de 6.134 prisioneiros no âmbito da sua amnistia anual. O ato, divulgado pelo Conselho Nacional de Defesa e Segurança, decorre das celebrações dos 78 anos de independência do país e foi justificado oficialmente por motivos “humanitários e compassivos”.
Segundo o comunicado oficial, os beneficiados — homens e mulheres detidos em prisões, centros de detenção e campos — receberam perdão do presidente interino nomeado pela junta. Entre os libertados estão também 52 estrangeiros. Em termos formais, trata-se de um alívio imediato para milhares de famílias; em termos de poder, é um movimento cuidadosamente calculado num tabuleiro onde cada peça tem função política.
Este gesto acontece após a extensa onda de prisões desencadeada após o golpe militar de fevereiro de 2021. Desde então, a tensão política e a repressão interna redesenharam fronteiras invisíveis da sociedade birmanesa, com prisões políticas e detenções administrativas tornando-se instrumentos permanentes da autoridade militar.
No mesmo período, o país realizou eleições parlamentares que se iniciaram em 28 de dezembro. O Partido da União, da Solidariedade e do Desenvolvimento — identificado como pró-junta — obteve o que as fontes oficiais descrevem como 90% dos assentos na Câmara dos Representantes. Observadores independentes e atores internacionais acompanharão com atenção como essa composição legislativa irá se traduzir em políticas internas e no posicionamento do regime perante a pressão externa.
Do ponto de vista geopolítico, a amnistia funciona como uma peça de comunicação: ao liberar prisioneiros numa data simbólica, a junta busca reconstruir uma narrativa de normalidade e clemência, enquanto preserva os alicerces autoritários que lhe permitem controlar instituições-chave. É um movimento que lembra um lance de xadrez — sacrificar ou mover peças menores para proteger a posição central do rei.
Resta a questão sobre o futuro dos libertados: muitos retornarão a comunidades sob vigilância, outros tentarão reorganizar formas de resistência; e uma parcela pode ainda enfrentar processos judiciais pendentes. A tectônica de poder no Myanmar permanece volátil, com atores regionais e internacionais calibrando respostas que vão do diálogo condicionado a sanções e apoio humanitário.
Em suma, a amnistia de 6.134 prisioneiros é simultaneamente um gesto humanitário de curto prazo e um instrumento de política interna e externa. A leitura estratégica exige cautela: o gesto não altera, por si só, os alicerces frágeis da diplomacia e da ordem pública imposta pela junta.




























