Em um movimento que combina etiqueta diplomática e comunicação estratégica, Moza bint Nasser, mãe do atual emir do Qatar, reapareceu no cenário cultural de Doha com uma mensagem deliberada: o luxo, em sua presença, é linguagem de Estado.
Avistada durante as atividades do Art Basel em Doha, a sceicca escolheu uma paleta de austeridade — um caftan de seda negro sobre um lupetto e óculos escuros discretos — que serviu de moldura para peças cujo valor transcende o mero adorno. Entre elas, destacou-se um anel com um impressionante diamante azul, de dimensões e claridade que, em leilões comparáveis, alcançam cifras superiores a 50 milhões de dólares.
Ao lado do anel monumental, Moza usou uma peça que é, ao mesmo tempo, joalharia e narrativa: a colar “The Parting Sands of Time“, concebido pelo designer de Cingapura Edmond Chin. A peça integra uma concha cowrie que abriga cristais de tanzanita bruta, concebida para revelar um leito oculto de diamantes e tanzanitas em lapidação emerald — uma composição que une tradição, geografia e um aparelho simbólico de memória.
O conjunto foi complementado pela bolsa Alaïa Le Teckel Small, o acessório ‘it’ da temporada, cujo preço flutua entre 1.900 e 2.700 dólares, e por peças consagradas de alta joalheria: a gargantilha “Eternity” da Cartier — um exemplar personalizado com dois diamantes brancos volumosos estimados em mais de 12 milhões de dólares — e pendentes da linha Panthère também da Cartier, avaliados em torno de 270 mil dólares. A coleção ainda inclui colares multi-fio com pérolas naturais do Golfo, assinados por Mikimoto e Robert Wan.
Mais que ostentação, a presença pública de Moza bint Nasser é um movimento no tabuleiro da diplomacia cultural. Segunda das três esposas de Hamad bin Khalifa Al Thani — emir entre 1995 e 2013 — e mãe de Tamim bin Khalad Al Thani, ela tem papel central na arquitetura institucional do país. Fundadora e força motriz da Qatar Foundation, responsável pelo projeto Education City, Moza liderou reformas no sistema de saúde e criou a iniciativa Silatech, voltada ao combate ao desemprego juvenil no mundo árabe.
Com presente e passado alinhados, sua imagem pública balanceia soft power e prestígio pessoal: mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram, coleções lendárias de joias e o aplauso dos grandes couturiers, que a comparam – em termos de glamour e influência cultural – a ícones do passado como Ava Gardner.
Em termos estratégicos, o aparente gesto de estilo é também um indicador de estabilidade e projeção internacional. Como um jogador experiente posiciona uma peça-chave para controlar o centro, Moza opera sobre alicerces da diplomacia e da cultura para consolidar uma imagem nacional que busca ser simultaneamente moderna e legítima.
Na tectônica de poder que marca o Golfo, cada joia exibida, cada instituição apoiada, é um movimento calculado — e a visita ao Art Basel Doha foi mais uma demonstração de como o soft power qatariano se expressa por vias estéticas, institucionais e simbólicas.



















