Por Marco Severini — Em um movimento que altera o tabuleiro operacional, as forças russas desenvolveram uma nova tática aérea: drones mãe baseados no Geran-2, concebidos para projetar seus filhos — sobretudo modelos FPV — mais profundamente em território ucraniano. A avaliação, citada pelo Institute for the Study of War (ISW), sinaliza uma adaptação técnica após a perda de acesso à infraestrutura de comunicação via Starlink.
Uma imagem divulgada por um blogueiro militar russo e repercutida pelo ISW mostra a plataforma-mãe sobrevoando a região de Sumy quando libera o drone menor. Na prática, o Geran-2 passa a operar como um repetidor de sinal: ele transporta e direciona o veículo menor até a aproximação ao alvo, preenchendo o vácuo deixado pela rede de satélites que antes servia de ponte de controle.
Em fases anteriores do conflito, as forças russas haviam utilizado modelos mais baratos — conhecidos como Gerbera — como plataformas para operações de reconhecimento e lançamento remoto. Contudo, os Gerbera suportam cargas explosivas limitadas e, uma vez liberado o drone filho, não podiam remeter-se a um segundo objetivo. O Geran, por sua construção, permite não só o lançamento, mas o redirecionamento do veículo menor em voo, ampliando o raio de ação e a flexibilidade tática.
Do ponto de vista operacional, a Rússia já foi pioneira no emprego massivo de drones táticos contra alvos civis e infraestruturas dentro da chamada kill-zone — a faixa de 15–20 km a partir da linha de frente onde a saturação de vetores não tripulados representa alto risco para pessoal e equipamentos. Muitos desses sistemas são drones FPV, veículos pequenos e relativamente baratos controlados por pilotos que monitoram feed em primeira pessoa através de visores. Eles operam em modo “kamikaze” (impacto suicida), em missões de reconhecimento ou para soltar cargas sobre alvos.
Em teoria, a visão em tempo real dos FPV permitiria discriminar alvos militares de civis. Na prática, segundo o ISW, a frequência com que esses vetores atingem alvos civis levou observadores a descreverem a campanha como um “safari humano” — uma frase que denuncia um padrão deliberado de ataques que atingem populações e infraestruturas não militares. Essas práticas motivaram investigações das Nações Unidas, cujo relatório concluiu que tais táticas equivalem a crimes de guerra.
Como analista diplomático, enxergo esta evolução como um movimento decisivo no tabuleiro: não apenas uma resposta técnica — substituir uma ponte de comunicação —, mas um redesenho das linhas de ação que altera os riscos humanitários e a dinâmica estratégica. Ao transformar plataformas maiores em centros de comando móveis, Moscou amplia a profundidade de alcance e fragmenta os alicerces frágeis da proteção civil.
É preciso, portanto, tratar a novidade como um sintoma e como um vetor. Sintoma, porque revela limitações logísticas e de comando após a perda de soluções comerciais de conectividade. Vetor, porque institucionaliza métodos que tornam mais difícil a proteção de civis em zonas próximas ao combate. Em termos de arquitetura de poder, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis — estendendo a área de ameaça sem abertura de novas frentes convencionais.
O desafio para a comunidade internacional é duplo: responder com medidas de mitigação técnica e impor custos políticos e jurídicos a táticas que degradam sistematicamente normas humanitárias. Enquanto isso, no tabuleiro, cada novo modelo de emprego de drones muda a ordem das prioridades estratégicas e humanitárias.






















