Por Marco Severini — É um ponto de virada geopolítico: as agências oficiais de Teerã confirmaram a morte do aiatolá Ali Khamenei, vítima de um massivo ataque aéreo conjunto das forças dos Estados Unidos e de Israel contra o seu complexo na capital iraniana. Aos 86 anos, a Guia Suprema deixa um vácuo de poder que reconfigura, de imediato, a tectônica de poder regional.
O anúncio prévio veio do presidente americano, que, em mensagem no seu canal, qualificou Khamenei como “uma das figuras mais nefastas da história” e atribuiu o êxito da operação a sistemas de rastreamento de altíssima precisão que teriam permitido a localização do líder apesar das camadas de segurança. O mesmo líder norte-americano afirmou que a ação representa “a maior oportunidade para o povo iraniano recuperar seu país”, conclamando os aparelhos militares a deporem as armas.
Do lado iraniano, o silêncio inicial deu lugar a declarações de martírio. As fontes oficiais confirmaram que, além do próprio Khamenei, pérderam a vida também alguns membros próximos da família — entre eles a filha, o genro e uma neta — e foi decretado um período de 40 dias de luto nacional. Enquanto recitações corânicas são transmitidas pelos canais estatais, há relatos de celebrações espontâneas em pontos de Teerã, sinalizando uma nação dividida entre dor, raiva e alívio.
Constitucionalmente, a sucessão caberá à Assembleia dos Peritos, mas o processo, em tempo de guerra, é abrupto e repleto de riscos de fragmentação. Entre os nomes ventilados estão Mojtaba Khamenei, filho do falecido, e figuras do clero conservador como Mohammad Reza Modarresi Yazdi. A ausência de um hereditarismo claro abre espaço para diversas opções: desde a escolha de um sucessor formal até a emergência de um conselho de transição com forte influência do Corpo da Guarda Revolucionária.
No tabuleiro internacional, as reações foram imediatas. O primeiro-ministro israelense saudou o desfecho como um “resultado decisivo para a segurança mundial”, sustentando que os ataques miraram também infraestruturas críticas dos programas de mísseis e nucleares. Em contrapartida, diplomacias europeias apelam à máxima contenção diante do cenário de escalada, enquanto analistas assinalam o risco elevado de retaliações indiretas por parte de aliados do Irã na região — notadamente Hezbollah e os Houthis — em frentes assimétricas que incluem ataques por procuração, ameaças a rotas marítimas e pressões sobre a segurança energética.
Como analista que observa o jogo de peças com calma institucional, não me permito pânico retórico: trata-se, sim, de um movimento decisivo que pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência. A morte de uma figura tão enraizada no sistema iraniano fragiliza alicerces diplomáticos e cria uma janela perigosa de contestação interna. Há, em seguida, cenários plausíveis — desde uma transição conduzida por elites conservadoras para preservar a continuidade do Estado, até uma fase mais turbulenta em que grupos paramilitares e facções clericais medem forças pelo controle do aparato de coerção.
Consequências imediatas incluem aumento da volatilidade nos mercados de energia, pressão sobre o tráfego no Golfo e no Mar Vermelho, e uma cascata de avaliações nas capitais sobre a necessidade de medidas de defesa e de contenção. A diplomacia deverá agir como construtora de pontes em um terreno de arquitetura frágil: negociações discretas, sinais de desescalada e canais de comunicação militares serão, nas próximas semanas, tão vitais quanto as declarações públicas.
Este é um momento em que a razão de Estado e a prudência estratégica devem prevalecer sobre a tentação de movimentos impetuosos. O Oriente Médio entra numa fase em que cada jogada será medida não só em termos de poder imediato, mas pela capacidade de estabilizar o tabuleiro para as gerações seguintes.






















