Por Marco Severini — A confirmação oficial da morte de El Mencho, nome verdadeiro Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, representa um movimento sísmico na técnica de poder do crime transnacional. Como líder máximo do Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), ele comandava uma das estruturas mais sofisticadas e perigosas do narcotráfico mundial, com particular domínio no tráfico de fentanyl e drogas sintéticas oriundas de rotas que incluíam insumos vindos da Ásia com destino final aos Estados Unidos.
A operação que resultou na sua morte foi conduzida por forças especiais do Exército mexicano em Tapalpa, no estado de Jalisco, com apoio de inteligência proveniente dos Estados Unidos. Essa convergência operacional confirma um ritmo de cooperação binacional que eu, conforme minhas análises de longa data, sempre identifiquei como imprescindível para enfrentar organizações que funcionam como verdadeiras multinacionais do crime, dotadas de recursos financeiros e tecnológicos que desafiam a capacidade de ação isolada dos Estados.
Do ponto de vista estratégico, a queda de um comandante desse calibre abre um espaço crítico no tabuleiro: a ausência de El Mencho provavelmente retardará a expansão do CJNG e o deixa mais vulnerável à ofensiva de rivais históricos, notadamente o Cartel de Sinaloa. Porém, e aqui reside a maior preocupação, o vácuo de poder tende a desencadear uma fase de luta interna pela sucessão, com potencial de amplificar a violência regional e gerar confrontos diretos com as forças de segurança.
As repercussões imediatas já são concretas: a presidente Claudia Sheinbaum pediu calma diante de confrontos intensos entre elementos do crime organizado e o Exército; companhias aéreas dos Estados Unidos e do Canadá cancelaram dezenas de voos para o México; e permanece a suspensão de atividades comerciais e escolares em 14 distritos afetados pela onda de violência. Esses fatos ilustram como a morte de um líder pode redesenhar, de forma quase instantânea, rotas econômicas e sociais — uma cartografia da instabilidade.
A sucessão no interior do CJNG será, por certo, uma disputa de alto risco. A organização possui quadros com capacidade de comando e redes de comando paralelo, mas também rivais externos que aguardam entalhar ganhos territoriais e logísticos. Em cenários como este, costuma emergir tanto uma liderança unitária — quando existe uma cadeia de comando sólida — quanto fragmentação, com facções que lutam por parcelas do negócio ilícito. Ambas as dinâmicas suscitam violência, ainda que com calibres e objetivos distintos.
Do ponto de vista da política externa e da segurança regional, a operação reforça um princípio de Realpolitik que advogo: sem cooperação internacional e sincronização de inteligência, as ações locais são limitadas. A ação em Tapalpa demonstra, contudo, que o entrelaçamento entre capacidades nacionais e parcerias externas pode produzir um movimento decisivo no tabuleiro estratégico. Resta administrar agora os alicerces frágeis da governança local e mitigar as consequências humanitárias e econômicas da transição violenta.
Concluo com uma observação geopolítica: a morte de El Mencho não é o xeque-mate definitivo contra o narcotráfico, mas um lance significativo que altera linhas de influência. O que vai definir o próximo capítulo será a habilidade do Estado mexicano, com apoio internacional, de consolidar ganhos institucionais, evitar a captura de espaços civis pela violência e impedir que o vácuo seja preenchido por atores ainda mais descentralizados e imprevisíveis.
Nota: os factos relatados foram confirmados pelo Departamento da Defesa do México e por fontes de inteligência que apoiaram a operação.






















