Por Marco Severini — Em um gesto de rara sobriedade pública, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou-se “muito triste” com a morte de Alex Pretti, 37 anos, ocorrido em Minneapolis durante uma operação de agentes federais de imigração. O chefe de Estado afirmou que irá pessoalmente supervisionar as apurações sobre o episódio, ocorrido no último sábado, quando Pretti, enfermeiro americano, foi contido, derrubado ao solo e atingido por dez tiros a curta distância.
Na declaração aos jornalistas, Trump recusou empregar o termo “assassino”, utilizado por um de seus conselheiros, mas ressaltou que a presença de uma arma no local complicou a situação. “Não”, respondeu o presidente quando questionado se a vítima havia agido como um “assassino”, e, em seguida, afirmou: “Dito isso, vocês não deveriam aparecer com uma arma, não deveriam fazê-lo, mas foi um incidente realmente spiacevole (lamentável)”. Fontes oficiais confirmaram que, no momento do confronto, Alex Pretti portava uma pistola — fato que agentes e apoiadores do direito ao porte de armas citaram para justificar as ações federais.
Relatórios da imprensa americana, incluindo a CNN, descrevem um histórico recente de tensão entre Pretti e agentes do ICE. Cerca de uma semana antes do homicídio, o homem teria sido derrubado por agentes federais durante um protesto e sofreu a fratura de uma costela. Documentos obtidos pela imprensa indicam que as equipes federais coletaram informações pessoais de manifestantes e registrados como “agitadores”, e já tinham compilado dados sobre Pretti antes do episódio fatal.
Um memorando interno, enviado no início do mês a agentes destacados temporariamente na cidade, instruía a reunir “todas as imagens, placas, documentos de identificação e informações gerais sobre hotéis, agitadores, manifestantes etc., de modo a consolidar tudo em um único formato”. Tal orientação revela um padrão de atuação que mistura inteligência operacional e vigilância de atividades que, em grande medida, gozam de proteção pelo Primeiro Emenda da Constituição dos EUA — um contraste inquietante entre segurança ostensiva e liberdades civis.
Fontes anônimas ouvidas pela reportagem traçam o precedente imediato do confronto: Pretti teria parado seu carro ao ver agentes do ICE perseguindo a pé o que ele descreveu como uma família; teria então começado a gritar e a soprar um apito, atraindo a atenção dos federais. Segundo relatos, cinco agentes teriam participado do episódio anterior que resultou na costela fraturada. Esse histórico, reunido com a presença da arma no dia do desfecho, compõem as peças de um tabuleiro onde decisões táticas e percepções públicas colidem.
Do ponto de vista estratégico, a reação de Trump — ao mesmo tempo conciliadora e cautelosa — busca equilibrar duas frentes: a de manutenção da autoridade federal sobre a ordem pública e a de mitigação do impacto político interno entre defensores dos direitos civis e da posse de armas. É um movimento cuidadoso em um tabuleiro geopoliticamente sensível, onde os alicerces frágeis da diplomacia doméstica podem ser abalados por investidas de segurança que ultrapassam limites constitucionais.
A investigação federal promete respostas, mas também acende debates permanentes sobre vigilância, uso da força e o alcance das operações de agentes de imigração em solo americano. Enquanto isso, a cidade de Minneapolis aguarda desdobramentos que poderão redesenhar, em termos práticos e simbólicos, as fronteiras invisíveis entre lei, ordem e direitos civis.






















