Por Marco Severini — Com a gravidade de quem observa movimentos decisivos no tabuleiro das políticas globais, registro a morte de William Foege, o médico e estrategista sanitário cuja visão instrumental foi crucial para a erradicação do vaiolo e para o redesenho de conceitos em saúde pública. Foege faleceu ontem à noite em sua residência em Atlanta, aos 89 anos; a causa informada pelo amigo e colega Dr. Mark Rosenberg foi insuficiência cardíaca congestiça, segundo relato do New York Times.
O legado de William Foege não se reduz a uma conquista técnico-operacional. Trata-se de um movimento estratégico que alterou a tectônica de poder nas respostas sanitárias do século XX: ao transformar a prática da vacinação em uma ferramenta inteligente de contenção, ele mudou as prioridades das agências de saúde pública e demonstrou como decisões cirúrgicas na logística podem produzir resultados globais.
Da missão na África à estratégia que derrotou o vaiolo
Filho de um pastor do Iowa, Foege serviu como médico missionário da Igreja Luterana na África. Em 1966, quando a Organização Mundial da Saúde lançou a campanha internacional para erradicar o vaiolo, o jovem médico foi destacado para atuar na região. Instalado em Enugu, na então parte leste da Nigéria, trabalhou em estreita colaboração com especialistas do programa, entre eles Donald A. Henderson e Donald Millar.
Na prática, Foege percebeu que a abordagem convencional — vacinar massivamente toda uma população — era ineficaz quando havia escassez de vacinas. Desenvolveu então a estratégia de surveillance-containtment, traduzida por muitos como vacinação em anel: localizar casos, mapear contatos e vacinar seletivamente os expostos. Foi um movimento conceitual e logístico que poupou recursos e acelerou a conquista. Essa abordagem tornou-se o eixo tático que viabilizou a história: o último caso natural de vaiolo ocorreu em 1977, e, em 1980, a doença foi declarada erradicada pela OMS.
Diretor do CDC e visão ampliada de saúde pública
Ao assumir a direção dos CDC durante as administrações de Jimmy Carter e Ronald Reagan, Foege não se limitou às doenças infecciosas. Guiado por uma visão ampla das causas de morte e do bem-estar coletivo, incumbiu a agência de enfrentar também acidentes de trânsito e a violência armada — temas que o colocaram em conflito com interesses corporativos e com setores do espectro político conservador. Ainda assim, sua liderança marcou uma expansão conceitual do que se espera de uma agência de saúde pública: não apenas vigilância de patógenos, mas prevenção integrada de danos.
Nos primeiros anos da epidemia de AIDS, foi uma referência para a resposta dos Estados Unidos, orientando abordagens de saúde pública em um momento de incertezas e estigmas. Após deixar formalmente o CDC em 1983, dedicou-se a iniciativas globais que ampliaram significativamente as taxas de vacinação infantil mundo afora.
Honras e uma nota final sobre o legado
Em 2012, o presidente Barack Obama concedeu a Foege a Medalha Presidencial da Liberdade — reconhecimento oficial de uma carreira em que ciência, prática e estratégia se articularam com rara eficácia. Hoje, quando os alicerces da diplomacia sanitária enfrentam pressões novas e antigas, a obra de Foege permanece como uma lição de Realpolitik aplicada à saúde: medidas pragmáticas, baseadas em evidência e executadas com precisão, podem redesenhar fronteiras invisíveis e preservar vidas em escala massiva.
Ao lembrar William Foege, cabe-nos extrair não apenas admiração, mas disciplina estratégica. Num mundo onde a geografia do poder e da vulnerabilidade está em movimento, sua trajetória é um manual de como se vence no tabuleiro — com paciência, visão e rigor tático.


















