Por Marco Severini — Em um movimento que busca reduzir a tensão sem alterar a estratégia de controle migratório, o enviado da Casa Branca a Minneapolis, o chamado czar da fronteira Tom Homan, anunciou o retorno imediato de 700 agentes do ICE. O gesto é apresentado como uma medida de de-escalation, embora Homan tenha sido categórico: as operações federais continuarão até que o objetivo — nas palavras dele, “tudo” — esteja concluído.
Em tom que alternou conciliação e firmeza, Homan ressaltou a colaboração com autoridades locais e divulgou que haverá uso de bodycams para agentes do Departamento de Segurança Interna. No entanto, não esclareceu se a retirada se aplica apenas à cidade ou a todo o Estado do Minnesota. Segundo suas declarações, permanecerão na região cerca de 2 mil agentes, contra os 150 que atuavam antes do início das operações federais.
O anúncio ocorre no contexto de semanas tumultuadas em que a presença de equipes federais — muitas vezes com rostos cobertos — desencadeou protestos e críticas. As operações do ICE em Minneapolis foram marcadas por prisões em massa e confrontos, e, segundo Homan, os agentes federais efetuaram detenções que incluiriam 139 pessoas por agressão, 87 por crimes sexuais e 28 supostos membros de gangues.
As palavras de Homan colidem com as reservas das autoridades locais. O prefeito Jacob Frey classificou a retirada parcial e o anúncio das bodycams como “um passo na direção certa”, mas afirmou que “2 mil agentes do ICE ainda na cidade não representam desescalada”, pedindo o fim imediato das operações que considerou “catastróficas”. O governador Tim Walz foi mais incisivo: a retirada, em sua avaliação, deveria ser “mais rápida e mais ampla” para interromper aquilo que definiu como uma “campanha de retaliação” por parte de Washington.
Homan, contudo, manteve a linha dura: segundo ele, a administração pretende prosseguir com expulsões em massa durante o mandato do presidente, e as ações de controle migratório seguirão diariamente. A retórica oficial sucede episódios de violência que aumentaram a carga simbólica do confronto: em janeiro, duas pessoas contrárias às operações federais, Renee Good e Alex Pretti, foram mortas, e Homan citou o caso de Pretti, atingido por diversos disparos enquanto estava no chão.
As operações do ICE deixaram marcas visíveis na rotina urbana: moradores que evitam circular nas ruas, comércio afetado e multidões que ainda se reúnem para protestar, mesmo diante do frio polar que castiga o Midwest. A secretária de Segurança Interna Kristi Noem também se manifestou, pedindo contenção para evitar novos episódios de violência.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, trata-se de um movimento calculado: retirar parte das forças permite ao Executivo federal aliviar pressão imediata sobre a cena pública — um movimento de recurso no tabuleiro — sem, contudo, abandonar a posição de força que sustenta a sua política de imigração. A decisão desenha um equilíbrio tênue entre preservação de autoridade e manejo da imagem pública, com implicações locais e nacionais numa fase pré-eleitoral.
Enquanto isso, a cidade de Minneapolis segue como um ponto de atrito na tectônica de poder entre governo federal e administrações locais, onde cada passo é uma jogada de alto risco. A questão central permanece: até quando a presença de milhares de agentes federais será tolerada pela sociedade civil e pelas lideranças locais antes que a pressão política force uma revisão mais substancial da estratégia?





















