Bruxelas — Um fenômeno inquietante vem redesenhando as vulnerabilidades do espaço digital: um número crescente de menores está sendo envolvido em atividades de terrorismo e extremismo violento. Relatório da União Europeia relativo a 2024 revela que quase um terço dos suspeitos de atos de matriz terrorista tinham menos de 20 anos, e o mais jovem identificado tinha apenas 12 anos. A maior parte desses casos permanece ligada ao terrorismo jihadista, embora o extremismo violento de direita tenha ganho terreno, sobretudo por meio de “clubes ativos” e redes extremistas on-line que disseminam conteúdo violento e incentivam comportamentos autodestrutivos entre jovens vulneráveis.
O documento identificado como “ProtectEU: Agenda per prevenire e contrastare il terrorismo” traça um diagnóstico claro: atores violentos exploram o ecossistema digital e as novas tecnologias — redes sociais, plataformas de jogos e aplicativos de comunicação — para difundir propaganda, desinformação, recrutar e arrecadar fundos. A amplificação algorítmica de conteúdos extremistas acelera processos de radicalização, criando corredores digitais onde narrativas violentas se tornam norma para audiências jovens e suscetíveis.
Nos bastidores operacionais, há um redesenho tático do financiamento e da coordenação: comunicações criptografadas de ponta a ponta (E2EE) servem como tabuleiro para planejar ataques, enquanto criptomoedas, ativos digitais não fungíveis (NFTs) e mecanismos análogos ao “hawala digital” obscurecem fluxos financeiros. Tecnologias emergentes agravam o risco: a inteligência artificial generativa tem sido indevidamente utilizada para produzir manuais operacionais de ataques; a impressão 3D facilita a fabricação de componentes letais; e o uso crescente de drones amplia o alcance e a letalidade das ações.
Em linguagem de estrategista, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro global: a tectônica de poder migra para camadas digitais onde os alicerces da prevenção ainda são frágeis. A Agenda ProtectEU responde a esse cenário combinando iniciativas correntes com novas medidas para seguir o ritmo de ameaças em rápida evolução. Entre as prioridades estão detectar ameaças antecipadamente, prevenir a radicalização em espaços físicos e virtuais, proteger pessoas vulneráveis e assegurar respostas rápidas, coordenadas e respeitadoras do direito internacional, dos direitos humanos e do direito humanitário.
O documento enfatiza também a necessidade de parcerias ampliadas — entre Estados-membros, setor privado das plataformas digitais, sociedade civil e especialistas em infância — e de investimentos em capacidades de investigação que entendam os padrões técnicos das novas ferramentas usadas por grupos violentos. A proteção de menores exige, por fim, políticas educativas e de intervenção precoce, que atuem tanto na redução do conteúdo nocivo quanto no fortalecimento de redes de apoio psicosocial.
Como analista, vejo nesta evolução um clássico dilema de Realpolitik contemporânea: enquanto as potências tentam proteger fronteiras físicas e influências regionais, a batalha por corações e mentes ocorre em camadas invisíveis da internet. A resposta europeia, ao propor um conjunto coerente de medidas, busca reequilibrar o tabuleiro — preservando liberdade e segurança sem desmontar os alicerces do Estado de direito. Será necessário, contudo, vigilância contínua e adaptação técnica para não permitir que novos movimentos estratégicos dos extremistas cri fronteiras de violência cada vez mais difíceis de conter.





















