Assumindo a voz de quem observa os movimentos internacionais como um tabuleiro de xadrez, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni qualificou em Seul como um equívoco a hipótese de um aumento de tarifas dirigido a países que enviaram tropas para a Groenlândia. Em tom medido e estratégico, Meloni explicou aos jornalistas que não compartilha essa leitura punitiva e que já tratou do assunto com o ex-presidente Donald Trump e com o secretário da NATO.
Segundo a premiê, houve um problema de compreensão e comunicação em torno da iniciativa de alguns Estados europeus — que, relembrou, não deve ser interpretada em chave “anti‑americana”. É preciso, disse Meloni, retomar o diálogo para evitar uma escalada: “Há que se recuperar as bases do entendimento e não transformar uma medida de segurança num instrumento de retaliação comercial”.
Na sua leitura, que reflete uma preocupação de alicerces diplomáticos frágeis, a atenção americana ao Ártico é legítima e estratégica. “Compartilho a preocupação que o presidente dos EUA atribui ao Ártico, uma área onde convém prevenir a excessiva ingerência de atores potencialmente hostis”, afirmou. Nesse prisma, Meloni interpretou o envio de contingentes por alguns países europeus como uma ação voltada a reforçar a segurança regional.
Do ponto de vista italiano, a chefe do governo reiterou que Roma foi convidada a integrar o Board of Peace para a Gaza. “Fomos convidados e acreditamos poder desempenhar um papel de relevo. Estamos prontos a contribuir na construção de um plano de paz”, disse, posicionando a Itália como um ator com relações sólidas com as partes regionais e com capacidade de agir como mediador pragmático.
Sobre a agenda doméstica, Meloni abordou o novo decreto de segurança. Conforme expôs, a segurança será um dos focos do ano e já antes do Natal ela havia se reunido com o ministro Piantedosi para delinear um provimento amplo, com prioridades como a repressão às baby gangs. O trabalho legislativo prossegue: haverá uma reunião para consolidar propostas da maioria, embora a primeira-ministra não garanta que o texto esteja pronto para o próximo Conselho de Ministros.
A visita a Seul encerra a missão asiática da premiê, que passou pelo Sultanato de Omã e pelo Japão. Em Seul, Meloni foi recebida na Air Base pelo vice‑ministro dos Negócios Estrangeiros Kim Jina, pelo embaixador da Coreia do Sul em Itália Kim Choon‑Goo e pela embaixadora italiana em Seul, Emilia Gatto. Está previsto, para 19 de janeiro, um encontro bilateral com o presidente sul‑coreano Lee Jae‑myung.
Do meu ponto de vista, como analista, há aqui um movimento decisivo no tabuleiro: a combinação entre preocupações regionais no Ártico, gestos de presença militar europeia e tensões comerciais forma um cenário de tectônica de poder que exige negociação refinada. A resposta política deve preferir a diplomacia de arquitetura — reconectar canais, clarear intenções e evitar medidas que transformem medidas de segurança em armas econômicas. Esse é o caminho para preservar a estabilidade das relações entre aliados e prevenir a erosão dos alicerces da cooperação transatlântica.





















