Por Marco Severini — Em um movimento calculado no tabuleiro da geopolítica digital, o Kremlin intensifica a transição das comunicações externas para um ecossistema doméstico: a MAX, plataforma de mensagens promovida como aplicativo nacional, foi projetada para substituir em massa o WhatsApp entre os cidadãos russos. O porta-voz presidencial, Dmitri Peskov, confirmou medidas que incluem o bloqueio de serviços da Meta com o objetivo explícito de direcionar usuários ao serviço vinculado ao ecossistema VK, peça-chave da estratégia tecnológica russa.
Apresentada em 2025 como resultado da evolução das iniciativas de VK no setor de mensagens, MAX pretende ser uma “super-app” no modelo chinês, semelhante ao WeChat. Não se trata apenas de uma aplicação de conversas: o projeto foi concebido para integrar mini-aplicativos, sistemas de pagamento e conexões a serviços públicos, incluindo mecanismos de identidade digital. Em termos práticos, a proposta é oferecer uma solução tudo-em-um para comunicação e uso cotidiano.
Do ponto de vista regulatório, a tática tem sido clara. Desde 1º de setembro de 2025, a MAX passou a ser obrigatoriamente pré-instalada nos dispositivos comercializados oficialmente no país, enquadrada numa legislação dedicada aos chamados “serviços multifuncionais de troca de informações”. Essa exigência institucionaliza uma preferência de infraestrutura que transforma plataformas domésticas em alicerces da soberania digital — um redesenho de fronteiras invisíveis no ciberespaço russo.
Em termos de funcionalidades, a aplicação reúne as rotinas esperadas de um mensageiro moderno: chats, grupos, chamadas de voz e vídeo, mensagens de voz, envio de arquivos pesados e stickers. Mas a ambição política e industrial vai além: a integração com pagamentos e serviços públicos pretende tornar a MAX um ponto único de interação entre cidadão e Estado, alterando a tectônica de poder sobre dados e fluxos de informação.
Analistas e mídias internacionais têm chamado atenção para um aspecto crucial: a plataforma aparenta não oferecer as mesmas garantias de criptografia ponta-a-ponta que caracterizam serviços como WhatsApp ou Signal. Essa lacuna técnica alimenta a leitura de que a MAX é, na prática, uma aplicação com forte vínculo governamental e, portanto, potencialmente mais exposta a pedidos de acesso por parte das autoridades.
Como estrategista das relações internacionais, observo que a consolidação da MAX é um movimento deliberado de Estado — um deslocamento de infraestrutura que visa reduzir dependências externas e garantir mecanismos de controle e resposta soberanos. No entanto, do ponto de vista dos direitos digitais e da confiança pública, há tensões evidentes: a troca de conveniência por vigilância tácita é um risco real quando o desenho institucional favorece plataformas integradas ao aparato estatal.
Em síntese, a introdução e imposição da MAX no mercado russo não é apenas uma operação tecnológica; é um movimento geoestratégico que altera o mapa da comunicação pública e privada. Trata-se de um jogo de xadrez em que peças invisíveis — dados, identidades digitais, e pontos de infraestrutura — são deslocadas para consolidar um novo eixo de influência. As consequências, para a sociedade e para a diplomacia internacional, serão medidas tanto na segurança das comunicações quanto na resiliência dos alicerces democráticos da informação.






















