Por Marco Severini — Em um movimento decisivo no tabuleiro da análise internacional, Giampiero Massolo — ex-secretário-geral da Farnesina e senior advisor do ISPI — traçou um diagnóstico sóbrio e estratégico na introdução da 35ª edição do Libro dei Fatti da Adnkronos, em livrarias a partir de 4 de dezembro, com cronologia ampliada até 31 de outubro de 2025.
Para Massolo, a geopolítica não apenas retornou ao centro do palco: ela reconfigurou os contornos da ação estatal e das decisões empresariais. Os conflitos em curso — notadamente na Ucrânia e no Médio Oriente — reacenderam dinâmicas territoriais e de projeção de poder que, apressadamente, muitos julgavam encerradas com o século XX. Renasce, assim, um cenário de inseguranças que julgávamos resolvidas; alicerces antes tidos como estáveis mostram-se agora frágeis.
No plano sistêmico, Massolo aponta para o declínio do que se convencionou chamar de ordem liberal pós-Guerra Fria. A erosão do multilateralismo e o enfraquecimento do direito internacional criam um vazio regulatório onde prosperam táticas e estratégias cada vez mais agressivas. A imprevisibilidade torna-se característica definidora do tempo presente; a spregiudicatezza, ou desfaçatez, frequentemente surge como postura mais eficaz para atores que privilegiam fins sobre regras.
Massolo enfatiza como fatores globais — mudança climática, energia, novas tecnologias, fluxos migratórios — assumem dupla natureza: desafios coletivos para a humanidade e, simultaneamente, instrumentos de pressão. É a weaponização de recursos e interdependências oriundas ou consolidadas pela globalização. Na prática, recursos críticos e cadeias de valor transformam-se em peças no jogo estratégico entre Estados e conglomerados.
Esta dinâmica desemboca na transformação da economia internacional de esfera neutra regulada por mercados em terreno de conflito aberto. Dúvidas que antes se restrinjam a tarifas e regulações agora se ampliam a sanções, restrições tecnológicas e reconfiguração de cadeias de abastecimento. O resultado é um cenário cada vez mais comparável a um jogo de soma zero, em que cooperar pode ser percebido como ceder vantagens estratégicas ao adversário — uma encenação que reproduz, corriqueiramente, os contornos dos conflitos geopolíticos entre potências.
Conseqüentemente, Massolo afirma que o risco geopolítico deixou de ser uma variável exógena para entrar como elemento intrínseco na equação de qualquer modelo de governança, público ou privado. Compreendê-lo, identificá-lo com rapidez e, quando possível, mitigá-lo, pode significar a diferença entre assegurar um setor produtivo, manter o fluxo de materiais estratégicos ou garantir o êxito de um plano de investimento.
Ignorar esse vetor, adverte o ex-diplomata, não é mais uma opção. O imperativo é um cambio di mentalità — uma reforma profunda que combine mudança de mindset, reorganização institucional e alocação de recursos. São três planos conectados: prevenção estratégica, resiliência organizacional e capacidade de resposta operacional. Em linguagem de cartógrafo e de jogador de xadrez: redesenhar fronteiras invisíveis e preparar movimentos que antecipem as réplicas adversárias.
Ao concluir, Massolo pede que Estados e empresas integrem a leitura do risco geopolítico aos seus processos decisórios, adotando ferramentas de inteligência, análise de cenários e coordenação público-privada. Só assim será possível erguer defesas eficazes contra a instrumentalização das vulnerabilidades e preservar, num mundo em tectônica de poder, os interesses essenciais da soberania e da prosperidade.






















