Por Marco Severini, Espresso Italia — Em uma análise precisa sobre os recentes tremores nos mercados, Massimo Doris, CEO da Banca Mediolanum, descreve a reação dos investidores como “absolutamente emotiva”. O lançamento nos Estados Unidos de duas plataformas de inteligência artificial voltadas à planejamento patrimonial e ao brokeraggio segurador provocou uma onda de vendas nas ações de gestoras, mas, segundo Doris, isso é mais uma redefinição entre fornecedores de tecnologia do que uma ameaça às redes de consultoria.
Com uma rede de 6.800 consultores que gerenciam cerca de 155 bilhões de euros dos poupadores italianos, Doris afirma categoricamente que a chegada dessas ferramentas destina-se a auxiliar os consultores independentes — escassa categoria em Itália — e não a substituí‑los. “É uma disputa entre plataformas tecnológicas, não entre tecnologia e consultor”, resume o executivo, demarcando o tabuleiro: quem está movendo as peças são os fornecedores de infraestrutura.
Do ponto de vista do comércio europeu e, em particular, do modelo de bancos‑rede como a Banca Mediolanum, o impacto será limitado, afirma Doris. A tradução direta da dinâmica americana para o contexto italiano é impraticável: a estrutura tributária local — com uma taxa fixa de 12,5% sobre títulos públicos e 26% sobre outros rendimentos de capital — torna irrelevante, em muitos casos, a solução de otimização fiscal automatizada que alarmou os mercados nos EUA.
Na sua avaliação, a essência que distingue o profissional humano da máquina não é apenas técnica, mas relacional. Não existe hoje “nenhuma inteligência artificial capaz de sentar ao seu lado e acompanhá‑lo”, sublinha Doris. No manejo do património, o que pesa frequentemente mais que o algoritmo são as reações comportamentais: diante de perdas de 10% ou 15%, a máquina pode recomendar manter a posição, mas o investidor, dominado pelo medo, tende a realizar a perda. O consultor reconstitui o percurso da decisão, recorda os objetivos, reaviva o horizonte temporal e constrói a confiança que permite resistir às oscilações.
Esta leitura exige visão estratégica: a tecnologia é uma peça no tabuleiro, um novo _roque_ operacional que melhora eficiência, redução de custos e automação de tarefas repetitivas — modelagem fiscal, análise de carteiras, geração de relatórios — mas não altera o alicerce da relação fiduciária. Doris lembra que outros saltos tecnológicos produziram prognósticos semelhantes: plataformas de trading online, fundos passivos, ETFs e os primeiros roboadvisors foram anunciados como sinais do fim da consultoria tradicional. O que se verificou, no entanto, foi uma redistribuição de funções e um redesenho das fronteiras invisíveis entre produto, distribuição e aconselhamento.
Concluindo com ponderação diplomática: a chegada massiva de ferramentas baseadas em inteligência artificial configura uma tectônica de poder entre fornecedores de tecnologia e intermediários, mas não um xeque‑mate ao papel do consultor. A verdadeira questão estratégica para as instituições é como integrar essas soluções preservando a confiança e o capital relacional — os verdadeiros ativos intangíveis que sustentam a gestão do aforro familiar.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.




















