O cineasta palestino premiado com o Oscar, Hamdan Ballal, sofreu nova agressão quando um grupo de colonos israelenses, liderados pelo identificado Sehm Tov Lusky, invadiu a área de sua residência em Masafer Yatta, na localidade de Susya. O episódio, ocorrido no domingo, agrava a já delicada tensão na região e expõe as fraturas institucionais que moldam a tectônica de poder na Cisjordânia.
Segundo o relato do próprio Ballal, os invasores adentraram o perímetro próximo à sua casa apesar de uma decisão judicial, obtida duas semanas antes, que vedava o acesso de não residentes àquela zona. A determinação do tribunal não foi, contudo, respeitada pelos colonos, que, conforme descrito, continuam a entrar com rebanhos e realizar incursões quase diárias.
Na sequência da invasão, testemunhos apontam que as forças de segurança israelenses — incluindo unidades do IDF — foram as primeiras a agir no local. Ballal acusa tanto o Exército quanto a polícia israeliana de omissão e de terem adotado medidas que culminaram em violência contra sua família. Dois irmãos do diretor, um sobrinho e um primo foram detidos no decorrer da operação; outro irmão ficou gravemente ferido e foi levado ao hospital.
“Chamamos a polícia, não fazem nada. Chega o Exército, não fazem nada”, declarou Ballal, sublinhando uma sensação de impunidade que, na sua leitura, ganhou impulso após a decisão judicial que buscava restringir as entradas de não residentes.
Este incidente não é isolado: integra um padrão crescente de confrontos entre residentes palestinos e grupos de colonos, num contexto político mais amplo em que o parlamento israelense avançou, desde o verão anterior, em moções e propostas legislativas que sinalizam uma tendência de incorporação de partes da Cisgiordania à soberania israelense. Em outubro de 2025, medidas preliminares legislativas foram aprovadas, estreitando o perímetro legal de disputas territoriais e estimulando a criação de novos assentamentos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro regional: a combinação entre ativismo parlamentar, expansão de colonatos e ações de força nos terrenos cria um redesenho de fronteiras ainda que informal — uma “anexação por etapas” que corrói os alicerces frágeis da diplomacia local. A omissão alegada das instituições de segurança perante agressões de colonos lança dúvidas sobre a capacidade e a vontade do Estado em manter a lei de modo imparcial.
Enquanto os olhos da opinião pública internacional se voltam para narrativas simbólicas e votações no parlamento, as famílias como a de Hamdan Ballal vivem a consequência imediata dessa tectônica: prisões, feridos e casas invadidas. Resta saber se decisões judiciais e apelos por proteção serão suficientes para alterar, no terreno, o curso de um conflito que segue reconfigurando poder e território como num jogo de xadrez geopolítico.






















