Por Marco Severini — Em um movimento que altera silenciosamente o mapa humano de Gaza, mais de 300 palestinos teriam sido deportados da Faixa de Gaza para o Joanesburgo, na África do Sul, por meio de dois voos secretos organizados por uma entidade que opera sob o nome de Al-Majd Europe. A operação, segundo investigações jornalísticas, configura uma fase prática do chamado Plano Aurora, cuja finalidade estratégica seria despovoar áreas da Faixa de Gaza e reposicioná-las no projeto político conhecido como Greater Israel.
Os passageiros, muitos originários de zonas mais afetadas pelos recentes combates, teriam pago entre US$ 1.500 e US$ 5.000 convencidos de que seriam relocados para destinos europeus “mais seguros”. Em vez disso, os voos pousaram em Joanesburgo e os deslocados foram deixados em situação de extrema vulnerabilidade: sem documentação regularizada, sem carimbo de saída e frequentemente alojados em condições inadequadas — relatos incluem abrigos improvisados e locais inapropriados como estabelecimentos vinculados ao submundo urbano.
Organizações sul-africanas humanitárias, em particular a Gift of the Givers, intervieram para obter vistos turísticos temporários inicialmente de 30 dias, estendendo um prazo mínimo para que os deslocados possam buscar soluções jurídicas e assistenciais. A carência de documentação e a opacidade do processo logístico agravaram o quadro, deixando famílias inteiras retidas e sem previsibilidade sobre seu futuro.
Fontes de mídia internacional, incluindo reportagens de Al Jazeera e Haaretz, descrevem a Al-Majd Europe como uma fachada operacionalista: uma estrutura registrada na Alemanha, com presença “legal” em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental, e perfis nas redes sociais supostamente gerados por inteligência artificial para promover a ideia de transferência voluntária como única alternativa para os gazawi. Investigações apontam ligações entre a organização e redes de atores pró-assentamentos em Israel, além de financiadores privados alinhados a objetivos expansionistas.
O episódio insere-se numa lógica geopolítica mais ampla. Reportagens recentes também associaram iniciativas diplomáticas — como o reconhecimento do Somaliland por Israel — a acordos que poderiam abrir corredores e bases no Golfo de Aden, parte de um redesenho estratégico visando controlar rotas marítimas e contrabalançar a influência de atores como os Houthi. Em Brasília ou em Jerusalém, estes são movimentos que se lêem como peças num tabuleiro de xadrez: cada reconhecimento ou realocação populacional altera fronteiras reais e simbólicas, criando alicerces frágeis que redefinem zonas de influência.
Para analistas e organizações de direitos humanos, a mobilização de voos charter e entidades de fachada constitui uma tática operacional do Plano Aurora, uma política cujos contornos ainda carecem de verificação plena, mas que se caracteriza pela tentativa de remapear a presença palestina na costa mediterrânea. No plano jurídico e humanitário, as questões centrais permanecem: consentimento informado, legalidade das remoções e responsabilidades por condições precárias de recepção.
Num momento em que o cessar-fogo formalizado em 10 de outubro de 2025 e a “fase 2” do acordo de paz deveriam oferecer estabilidade, a operação exposta sugere que a implementação política pode continuar a operar por vias paralelas e discretas. Isto reforça a necessidade de vigilância internacional e de mecanismos de verificação que possam acompanhar movimentações populacionais de larga escala e identificar atores que se servem de fachadas para objetivos geoestratégicos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: não apenas relocando pessoas, mas desenhando, aos poucos, uma nova aritmética demográfica que pode moldar futuras negociações territoriais. As instituições multilaterais e as ONGs humanitárias enfrentam agora o desafio de traduzir constatações jornalísticas em processos judiciais e interventivos que protejam direitos e limitem práticas de expulsão dissimuladas.
Marco Severini, analista sênior de geopolítica e estratégia internacional, Espresso Italia.


















