Por Marco Severini — Em tom calculado e estratégico, o presidente francês Emmanuel Macron apresentou a sua visão econômica europeia em entrevista concedida a Le Monde e a outros jornais europeus, incluindo Il Sole 24 Ore. Às vésperas do encontro preparatório sobre competitividade europeia e do cimeira de Antuérpia dedicado à indústria, Macron defende um salto institucional: a criação de uma dívida comum da União Europeia destinada a financiar prioridades de segurança e tecnologia.
Na leitura do presidente do Eliseu, a Europa enfrenta um momento que ele descreve como um verdadeiro ‘despertar europeu’ diante de uma conjuntura externa que reduz a sua margem de manobra. Macron recorda o acelerado avanço chinês no comércio internacional — hoje com um excedente de cerca de 1.000 bilhões de euros em relação ao resto do mundo — e a volatilidade comportamental dos aliados transatlânticos, configurando aquilo que podemos entender como uma nova tectônica de poder global.
Partindo deste diagnóstico, o presidente francês propõe quatro eixos concretos para recompor a posição estratégica europeia. Primeiro, a simplificação e o aperfeiçoamento do mercado único. Segundo, a diversificação das relações comerciais e o de‑risking das dependências estratégicas acumuladas nas últimas décadas. Terceiro, a afirmação da preferência europeia, com instrumentos como cláusulas de salvaguarda em setores sensíveis, a exemplo do aço. E quarto, um esforço massivo de investimento em inovação — em particular em inteligência artificial e pesquisa quântica — para evitar que o continente seja progressivamente ultrapassado.
Do ponto de vista financeiro, Macron defende uma combinação de medidas: mobilização do poupança privada, aceleração de programas de securitização europeia, a concretização da União dos Mercados de Capitais e, sobretudo, o lançamento de uma capacidade comum de endividamento capaz de financiar despesas futuras em defesa e tecnologia com rapidez e escala. Na linguagem da diplomacia e da estratégia, trata‑se de criar alicerces financeiros que permitam à Europa realizar movimentos decisivos no tabuleiro geopolítico.
Esta proposta, além de técnica, tem forte componente política. Abrir a possibilidade de um endividamento coletivo implica um redesenho consciente das responsabilidades e dos instrumentos comunitários — um ajuste que se move entre prudência orçamentária e ambição estratégica. Para Macron, a escolha é clara: se a União permanecer apenas um mercado aberto sem capacidade de projecção, será o fator de ajustamento do sistema global. Se optar por consolidar instrumentos financeiros e industriais comuns, poderá emergir como potência autônoma.
Como analista, vejo na proposta uma operação de realpolitik calibrada: é uma tentativa de converter vulnerabilidades econômicas em capacidade operativa, reunindo recursos públicos e privados para sustentar inovação e defesa. Resta saber como os parceiros europeus interpretarão o risco político dessa operação e se haverá convergência suficiente para que o movimento seja realizado com a disciplina estratégica necessária.
Macron coloca sobre a mesa a ideia de uma dívida comum da UE para alavancar investimento em defesa e inteligência artificial, propondo um roteiro que combina reformas estruturais, políticas comerciais ativas e uma nova arquitetura de financiamento. É um desafio que extrapola orçamentos: é um convite a redesenhar, com moderação e ambição, os alicerces da diplomacia e do poder europeu.






















