Por Marco Severini — Na Conferência anual de Segurança em Munique, o presidente francês Emmanuel Macron lançou um posicionamento de alto grau estratégico: a resolução do conflito na Ucrânia não pode ser desenhada sem a participação ativa da Europa. Numa intervenção pensada para deslocar o foco da crônica do campo de batalha para a arquitetura do “day after”, Macron traçou um esboço das reformas necessárias à segurança europeia e das linhas de convivência com uma Rússia que, embora fragilizada, permanecerá um ator perigoso e estruturalmente presente.
O chefe do Eliseu insistiu que a discussão sobre o fim da guerra, hoje dominada pelo formato direto entre Moscou, Kiev e Washington, precisa abrir espaço para a voz europeia: “Nenhuma paz sem os europeus“, afirmou, sublinhando que qualquer acordo deverá integrar garantias de segurança, um pacote de prosperidade, medidas de alívio sobre sanções e decisões sobre o futuro europeu de Kiev. Em termos práticos, tratam-se tanto de mecanismos de dissuasão como de instrumentos econômicos e políticos para assegurar um equilíbrio duradouro.
Macron descreveu a Rússia como um ator enfraquecido — desgaste por guerra, recessão e isolamento econômico, com crescente dependência da China — mas advertiu contra subestimação: a indústria de defesa russa pode sair do conflito “hiperpotenciada” e o seu exército “ipertrofico”, o que elevaria Moscou a uma fonte permanente de instabilidade nas periferias da Europa. Esse diagnóstico fundamenta a proposta de preparar desde já um quadro de coexistência e gestão de risco para o pós‑guerra.
No plano operacional, Macron levantou questões estratégicas cruciais: o deslocamento de mísseis de longo alcance para proximidades das fronteiras europeias, as interferências russas nos países do vizinho, o controle e a regulação de armamentos numa era dominada por drones, e o capítulo nuclear, especialmente num cenário em que o fim do tratado New Start amplia a volatilidade. Para o presidente francês, a deterência nuclear francesa deve ser pensada como uma “inspiração europeia” e um elemento a integrar no reesboço das garantias de segurança.
Macron afirmou também que, enquanto apoia a iniciativa do presidente Donald Trump por uma via de negociações, não pode haver ingenuidade: a Rússia prossegue ataques a civis e infraestruturas com a intenção de “congelar” a sociedade ucraniana até forçar concessões. A resposta adequada, disse, não é ceder, mas manter e aumentar a pressão sobre Moscou, ao mesmo tempo em que se prepara um horizonte político mais amplo.
No coração da proposta está a transformação da Europa numa potência geopolítica capaz de atuar tanto na deterência convencional quanto no controlo de armamentos. Macron revelou que Paris já iniciou um diálogo estratégico com o chanceler alemão Friedrich Merz e outros líderes europeus, buscando coordenar uma visão comum. Ressaltou ainda que qualquer contacto direto com a Rússia deve ocorrer com plena transparência e em permanente consulta com a Ucrânia e os aliados americanos.
Como analista que observa o tabuleiro estratégico, é claro que a proposta de Macron visa redesenhar alicerces — não apenas rearranjar peças. A Europa é chamada a ocupar um papel central na gestão pós‑conflito: desde a arquitetura de garantias até o redesenho das normas de convivência entre potências. A tectônica de poder europeia precisa, portanto, de reformas que traduzam autoridade diplomática em estruturas materiais de segurança.
Em suma, a mensagem de Munique foi dupla: reconhecer a fragilidade russa e, simultaneamente, preparar a Europa para um papel decisivo no desenho do futuro. A política a seguir exigirá simultaneamente firmeza militar, sofisticada diplomacia e pacotes de reconstrução que consolidem um novo mapa de estabilidade — uma partida de xadrez de alto risco em que cada movimento definirá as fronteiras invisíveis da próxima década.






















