Marco Severini — O governo britânico está avaliando a promulgação de uma norma que poderia retirar o ex‑príncipe Andrew Mountbatten‑Windsor da linha de sucessão ao trono, após o aprofundamento das investigações sobre seus laços com o magnata pedófilo Jeffrey Epstein, informa a Reuters, com base em fonte oficial.
Historicamente, durante a vida da rainha Elizabeth II, Andrew ocupou a segunda posição, atrás apenas do então príncipe Charles. Com a ascensão de Charles ao trono, o deslocamento natural da ordem sucessória fez com que Andrew ficasse agora na oitava posição, superado por William, seus filhos, e por Harry e seus descendentes — uma geometria do poder que vem sendo redesenhada conforme as gerações avançam.
A proposta legislativa, ainda em avaliação, surge em meio a um sentimento público pungente. Pesquisa do YouGov citada pelo The Guardian aponta que 82% dos britânicos entendem que Mountbatten‑Windsor deveria ser totalmente removido da linha de sucessão, enquanto apenas 6% acreditam que ele deva permanecer. Esses números traduzem um terremoto na opinião pública, deslocando os alicerces frágeis da diplomacia real para um debate aberto sobre legitimidade institucional.
No front político, vozes de diferentes espectros corroboram a necessidade de uma resposta institucional. Andrew Bowie, secretário sombra para a Escócia, declarou à GB News que, em caso de condenação, o Parlamento teria o direito de agir para eliminar Andrew da sucessão, mas sublinhou que “ainda não foi declarado culpado de nada” e que as investigações policiais devem seguir sem pressa e sem pré‑julgamentos.
Stephen Flynn, líder do SNP, apoiou a ideia ao afirmar ao The Sun que a opinião pública estaria “corretamente irritada” com a perspectiva de um indivíduo ligado a mentiras sobre sua relação com Epstein permanecer em rota para tornar‑se chefe de Estado. Ed Davey, líder dos Liberal Democratas, também advertiu que cabe ao Parlamento considerar a matéria no momento oportuno, salientando a prioridade de garantir que a polícia realize seu trabalho “sem temores ou favoritismos” — mas sem pedir, por ora, a remoção imediata.
Do ponto de vista institucional, a movimentação proposta não é meramente simbólica: toca no núcleo da soberania constitucional e na prerrogativa do Parlamento de legislar sobre a sucessão. Trata‑se de um movimento decisivo no tabuleiro — não apenas pessoal, mas estrutural — que pode exigir soluções jurídicas precisas para preservar a credibilidade da monarquia e evitar futuros abalos reputacionais.
Como analista, observo que o processo terá de equilibrar duas necessidades concorrentes: proteger a integridade da Coroa e assegurar os princípios do direito penal e do devido processo. Qualquer alteração legislativa será, em essência, um lance político e jurídico que redesenha fronteiras invisíveis entre instituição e indivíduo, com repercussões duradouras para a tectônica de poder do Reino Unido.
Enquanto isso, o país aguarda os desdobramentos das investigações, e o Parlamento, como mesa do xadrez institucional, prepara‑se para possivelmente intervir quando o momento for considerado adequado. Ao mesmo tempo, a opinião pública e as lideranças partidárias consolidam uma narrativa que pode tornar inevitável uma reforma formal da posição de Andrew na ordem sucessória.






















