Leonardo Maria Del Vecchio, por meio de seu family office Lmdv Capital, concluiu um passo significativo no tabuleiro da mídia italiana ao adquirir cerca de 70% de EN – Editoriale Nazionale, o grupo que publica Il Giorno, La Nazione, Il Resto del Carlino e QN. A operação foi formalizada após deliberação do Conselho de Administração da Monrif, até então controladora da sociedade, conforme comunicado oficial divulgado pela empresa.
Apesar do não por parte do grupo Gedi, a iniciativa do jovem empresário segue adiante. Em declaração oficial, Leonardo Maria Del Vecchio definiu a aquisição como parte de um “projeto industrial de longo período” que reconhece à editoria um papel central para o país. “Acreditamos no valor da informação de qualidade e na autonomia das redações. Nosso compromisso é investir com capital paciente, integrando tecnologia e competências a serviço do trabalho jornalístico”, disse Del Vecchio.
O comprador destacou ainda a intenção de abrir diálogo com jornalistas, redações e comitês de redação após a conclusão dos trâmites formais, visando construir um percurso compartilhado que preserve a independência editorial e a profissionalidade das equipes.
Do lado vendedor, Andrea Riffeser Monti, presidente da Federação Italiana Editori Giornali, afirmou sentir-se “feliz e honrado” com o acordo, ressaltando que a operação fortalece o futuro de uma informação livre e responsável — elemento que continuou sendo descrito como essencial para a democracia italiana.
Embora os detalhes financeiros da transação não tenham sido oficializados, fontes próximas à operação indicam que a participação adquirida por Lmdv Capital gira em torno de 70%. A atual composição do capital social da Monrif é liderada por Monti Riffeser Srl com 63,6%, seguida por Adv Media (Andrea Della Valle) com 10,97%, Tamburi Investment Partners com 7,89%, Future Srl com 5,98% e a Fondazione Cassa di Risparmio di Trieste com 5,22%.
Este movimento corporativo sucede outra investida de Lmdv Capital no setor: a aquisição de 30% d’O Il Giornale, obtida às custas da quota de Angelucci, estimada em cerca de 7 milhões de euros. Na nova configuração, Tosinvest permanece com 65% e Paolo Berlusconi com 5% das participações no título.
Do ponto de vista estratégico, o ingresso de um family office com perfil de venture capital no universo da imprensa tradicional indica um reposicionamento que combina paciência financeira e ambição tecnológica. Lmdv Capital tem se mostrado disposto a operar tanto em iniciativas disruptivas quanto na preservação de ativos clássicos, vendo na imprensa impressa uma peça ainda estratégica no mosaico informativo italiano.
Como analista de relações internacionais e geopolítica, observo este episódio como um movimento decisivo no tabuleiro da influência midiática: a consolidação de propriedades editoriais pela via privada redesenha linhas de poder informativo e repercute nas arenas políticas e econômicas. Os alicerces da diplomacia pública são frágeis quando dependem de estruturas de propriedade concentrada; por isso, a ênfase declarada na autonomia das redações será o parâmetro pelo qual essa operação será julgada pela sociedade e pelos mercados.
Nos próximos meses, o foco estará em três vetores: governança editorial prática, investimentos em tecnologia para distribuição e modelos de receita que permitam conciliar sustentabilidade econômica com integridade jornalística. A tectônica de poder que emerge deste negócio exigirá prudência e uma arquitetura de governança transparente — para que o movimento, embora estratégico, não fragilize os fundamentos da informação livre.
Marco Severini — Espresso Italia



















