Por Marco Severini — A tectônica de poder na borda norte de Israel volta a mostrar fissuras. Mesmo após o acordo de 27 de novembro de 2024, que deveria funcionar como alicerce para uma trégua duradoura, prosseguem as operações aéreas israelenses no Líbano, sinalizando um movimento deliberado no tabuleiro que busca desgastar estruturas militares e logísticas adversárias.
Dados da ONG Alma Research registram que, somente em janeiro de 2026, a aeronáutica israeliana realizou 87 ataques em solo libanês — mais do que o dobro dos 41 ataques contabilizados em dezembro de 2025. A média de quase três ataques por dia configura o patamar mais elevado desde a assinatura do cessar‑fogo. Essa intensidade operacional revela uma estratégia de pressão continuada, ora em tom de guerra de baixa intensidade, ora como tentativa de remodelar, pela força, linhas de abastecimento e comando.
A distribuição dos ataques confirma o foco sobre as rotas consideradas vitais para o movimento do grupo Hezbollah. Ao norte do rio Litani foram realizados 43 ataques — 38 deles contra o que as Forças de Defesa de Israel qualificam como infraestrutura militar e cinco visando alvos individuais. Outras 31 ações atingiram a faixa ao sul do Litani, enquanto 13 operações incidiram no vale da Beqaa, apontado como retaguarda logística do grupo xiita.
O balanço humano também é parte da equação: em janeiro foram anunciadas 21 mortes apontadas como combatentes — 20 atribuídas a membros do Hezbollah e uma a um integrante do Hamas em Braikeh, ao norte do Litani. Desde o cessar‑fogo, o total divulgado de militantes do partido eliminados chega a 252. A mais recente ação letal identificada pelas autoridades israelenses atingiu Ali al‑Hadi Mustafa al‑Haqqani, descrito como “oficial de alto escalão” nas unidades de defesa aérea do movimento, abatido em Harouf, no sul.
Além das operações direcionadas, há um padrão de danos ambientais que merece atenção estratégica: o uso repetido de munições incendiárias e substâncias químicas tem comprometido campos cultivados e florestas — uma forma de ecocídio menos dramática em escala que a registrada em outros teatros, mas ainda assim com efeitos persistentes sobre comunidades rurais, cadeias de suprimento e legitimidade internacional.
A tensão entre Israel e a missão da ONU UNIFIL ao longo da Linha Azul prossegue, com acusações mútuas que corroem os já frágeis alicerces da diplomacia local. As violações do cessar‑fogo, contabilizadas em milhares conforme fontes internacionais, transformam o terreno numa arquitetura de incertezas: cada ataque é um movimento calculado para redesenhar, pouco a pouco, fronteiras invisíveis de poder e capacidade.
Do ponto de vista realista, trata‑se de uma campanha concebida para impor custos e dissuadir reagrupamentos adversários sem, no entanto, desencadear um confronto aberto de larga escala. Ainda assim, a repetição dos golpes e a destruição ambiental elevam o risco de escalada involuntária e ampliam a dificuldade de reinstaurar um contexto estável para negociações futuras.
Num tabuleiro onde as jogadas são observadas por capitais regionais e potências externas, a continuidade dos ataques em janeiro não é apenas um dado militar: é um indicador do estado atual da ordem regional, um teste sobre os limites da paciência e da capacidade de contenção de atores que operam nas sombras e à vista de todos.






















