Por Marco Severini — Em um episódio que revela tanto falhas de coordenação institucional quanto o redesenho invisível das fronteiras de poder, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos abateu, com um sistema de energia dirigida, um drone da Customs and Border Protection (CBP) sobre Fort Hancock, Texas, região sensível na fronteira com o México. A ação forçou a Federal Aviation Administration (FAA) a interditar temporariamente voos na área por “razões especiais de segurança”, ampliando restrições iniciadas após um caso semelhante no começo do mês.
Segundo o comunicado oficial, o Pentágono utilizou uma arma a laser “para neutralizar um sistema aéreo sem piloto aparentemente ameaçador que operava em espaço aéreo militar”. Ainda de acordo com a nota, a intervenção ocorreu “longe de áreas povoadas” e não havia aeronaves comerciais próximas. A administração Trump, por meio do secretário de Transportes Sean Duffy, descreveu o episódio como uma resposta rápida a uma “incursão de drone dos cartéis”.
Contudo, atrás dessa narrativa de uma ameaça externa desponta um claro curto-circuito interno. Reportagens do Axios e da Reuters indicam que o Pentágono empregou um “sistema militar anti-drone baseado em laser” sem coordenação prévia com a CBP e — sobremaneira relevante — sem notificar a agência reguladora dos voos civis, a FAA. É nessa ausência de diálogo que se abre a fratura: de um lado, o DoD e o Departamento de Segurança Interna, dispostos a desplegar capacidades anti-drone, por vezes experimentais; do outro, a FAA, defensora de procedimentos e salvaguardas no espaço aéreo civil.
Não é um confronto inédito. Uma anterior interdição do espaço aéreo em El Paso teria origem em desacordo sobre a segurança dos testes a laser. A FAA manifestou reservas quanto ao uso da tecnologia próxima a rotas comerciais; o Pentágono sustentou que poderia acioná-la sem autorização prévia em cenários de perigo aparente. A tensão entre urgência operativa e cultura de segurança institucionaliza uma espécie de “tectônica de poder” no tabuleiro aéreo americano.
As reações políticas, especialmente do Partido Democrata, foram duras. Os deputados Rick Larsen, Bennie Thompson e Andre Carson qualificaram a decisão como “míope” e fruto de “incompetência”. A senadora Tammy Duckworth exigiu investigação pelos inspetores-gerais, denunciando que “a ineptidão da administração continua a causar caos nos nossos céus”.
O cerne da questão é, pois, institucional e normativo: quem detém a prerrogativa final para sobrepor a lógica da segurança nacional às normas da aviação civil? O Pentágono justifica-se pela neutralização de uma ameaça “aparentemente ameaçadora”; a FAA amplia restrições “para garantir a segurança”. Enquanto não se edificarem procedimentos compartilhados — alicerces que integrem poderes militar, de segurança interna e regulador civil —, incidentes análogos ameaçam proliferar e a interrupção do tráfego aéreo continuará a ser uma das consequências tangíveis deste impasse.
Em termos estratégicos, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: a introdução prática de armas a energia dirigida em fronteiras internas altera não apenas táticas de interdição, mas também as regras do jogo entre agências. Sem uma arquitetura de governança que coordene tecnologia, missão e riscos civis, o risco é que o diálogo entre segurança e liberdade de circulação — já frágil — se desintegre em sucessivas emergências.
Enquanto isso, o espaço aéreo permanece um campo de confronto regulatório onde a urgência operacional e a precaução técnica disputam supremacia. A pergunta que fica, de natureza tanto jurídica quanto política, é simples e profunda: até que ponto o argumento da segurança nacional legitima decisões que, na prática, fecham os céus e impõem efeitos colaterais sobre civis e economia? A resposta exigirá investigação, revisão de procedimentos e, sobretudo, construção de um consenso que evite novos choques no tabuleiro.






















