Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um gesto que mistura tradição e trivialidade institucional, Larry, o reconhecido Chief Mouser de Downing Street, celebra quinze anos de presença contínua no cerne do poder britânico. Mais do que um habitante carismático, Larry tornou-se um símbolo de continuidade: uma peça estável em movimento no tabuleiro fraturado da política contemporânea.
Adotado pelo Battersea Dogs and Cats Home e levado a 10 Downing Street pelo então primeiro-ministro David Cameron, Larry instalou-se oficialmente nas dependências do governo em 15 de fevereiro de 2011. Desde então, serviu sob seis primeiros-ministros — um percurso que abrange administrações com estilos e prioridades distintas, e que por si só fala da função diplomática que um animal pode ocupar em tempos de turbulência: a imagem de um alicerce doméstico num cenário de grandes movimentos geopolíticos.
O perfil oficial do governo descreve suas atribuições com uma ironia institucional: “receber convidados, inspecionar defesas de segurança e testar a qualidade dos móveis antigos”. Na prática, Larry patrulha livremente as áreas de trabalho do número 10, ocasionalmente usurpando a atenção de visitas de Estado e tornando-se, ele próprio, parte dos rituais da diplomacia pública. O professor Philip Howell, da Universidade de Cambridge, que estuda as relações entre humanos e animais, sintetizou bem: “Ele representa a estabilidade e esse é um bem precioso”. Howell observou ainda que o índice de simpatia do felino supera frequentemente o dos próprios líderes.
No capítulo dos encontros entre fauna e diplomacia, Larry teve papéis variados: recebeu presidentes e primeiros-ministros estrangeiros, provocou sorrisos em figuras como Barack Obama e Volodymyr Zelensky, e protagonizou um incidente curioso durante a visita de Donald Trump em 2019, quando entrou na foto oficial e depois repousou sob o carro blindado do visitante. Há relatos contraditórios sobre sua eficiência como caçador — fotos captaram ratos ocasionalmente, e há até um episódio envolvendo um pombo — mas o retrato mais frequente é o de um gato que prefere a indiferença elegante ao confronto.
Testemunhas habituais, como o fotógrafo Justin Ng, descrevem Larry como “mais um amante do que um combatente”: especializado em ocupar espaços simbólicos e em manter uma presença que acalma o imaginário público. Essa capacidade de tornar previsível o imprevisível é, na ótica da estabilidade política, uma jogada de mestre: um pequeno movimento no tabuleiro que ajuda a preservar a continuidade institucional.
A convivência com os animais de alguns primeiros-ministros foi por vezes tensa. Entre companheiros notáveis estão Dilyn, o cruzamento de Jack Russell de Boris Johnson, e Nova, o labrador de Rishi Sunak. No caso do atual primeiro-ministro Keir Starmer, os gatos JoJo e Prince residem nos alojamentos privados da família, enquanto Larry mantém-se nas áreas de trabalho do gabinete, preservando a sua função institucional.
Hoje Larry é um felino senescente — estimativas situam sua idade entre 18 e 19 anos — e seu ritmo diminuiu. Ainda assim, continua a patrulhar seu território, a dormir em locais simbólicos do número 10 e a oferecer aquela imagem reconfortante que, em tempos de redobrada volatilidade, cumpre um papel maior do que aparenta: o de lembrança de que, por entre tectônicas de poder e redesenhos de influência, há pequenos rituais e presenças que mantêm a arquitetura da vida pública intacta.
Em termos de protocolo e percepção pública, Larry é uma lição prática de soft power doméstico — um movimento discreto, porém decisivo, no tabuleiro da imagem estatal.






















