Por Marco Severini — Em um movimento que tem tanto valor simbólico quanto estratégico, o Kremlin afirmou nesta quarta-feira que o presidente Volodymyr Zelensky será bem‑vindo em Moscou caso manifeste a intenção de se encontrar com o presidente Vladimir Putin. A garantia formal foi feita pelo conselheiro presidencial russo Yuri Ushakov, que enfatizou a disponibilidade de oferecer as condições de trabalho e a segurança necessárias para uma visita do líder ucraniano.
O anúncio se insere em uma sequência diplomática cautelosa: nas últimas horas, o porta‑voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reafirmou que o trabalho do grupo trilateral sobre a Ucrânia — envolvendo Rússia, Estados Unidos e Ucrânia — continuará, depois do segundo ciclo de negociações que se encerrou em Abu Dhabi. O governo dos Emirados avaliou o encontro como “positivo e construtivo”, e informou que delegações russa e ucraniana chegaram a estabelecer contactos diretos.
Segundo Peskov, as conversas são “muito complexas” e têm avançado em nível técnico e de especialistas. O terceiro round da iniciativa está marcado para 1º de fevereiro, novamente em Abu Dhabi, reforçando a lógica de um esforço continuado para traduzir temas de segurança em termos geríveis — um tipo de desenho tático que se constrói passo a passo, como um plano bem calculado no tabuleiro.
Do ponto de vista estratégico, o convite explícito — e a subsequente oferta de garantias — representam um movimento de alto risco e alto retorno. Receber Zelensky em Moscou significaria um gesto de alto impacto político, capaz de alterar a narrativa internacional e os alicerces frágeis da diplomacia em curso. Ao mesmo tempo, uma visita deste tipo envolveria delicadas questões de protocolo, segurança e legitimidade, além de potenciais repercussões em capitais ocidentais.
Em paralelo, o Kremlin rejeitou um relatório de um think tank sediado em Washington, o Center for Strategic and International Studies (CSIS), que estimou em quase 1,2 milhão as vítimas russas — entre mortos e feridos — desde o início do conflito em fevereiro de 2022. Moscou qualificou esses números como não confiáveis e advertiu contra projeções alarmistas; o estudo do CSIS ainda projeta que, mantendo‑se as tendências atuais, as perdas combinadas poderiam aproximar‑se de 2 milhões até a primavera de 2026.
Há, portanto, dois movimentos simultâneos no cenário: por um lado, a abertura — cuidadosamente formulada — para um encontro de alto nível entre os dois presidentes; por outro, a tentativa de moldar percepções sobre o custo humano da guerra. Ambos pertencem à mesma tectônica de poder: redesenhar linhas de influência sem alterar, de forma abrupta, o posicionamento das peças no campo de batalha e na arena diplomática.
Como analista, observo que qualquer avanço real dependerá da tradução desses contactos técnicos em compromissos políticos sustentáveis. A continuidade dos encontros em Abu Dhabi sugere que as partes optaram por um processo gradual, técnico‑diplomático — uma sequência de aberturas controladas que, se bem geridas, podem preparar o terreno para movimentos decisivos no tabuleiro internacional.
Por ora, a proposta russa de acolher Zelensky em Moscou é tanto uma oferta quanto um teste: avaliar a disposição de Kiev em dialogar em solo adversário e medir a reação dos atores externos. No contexto atual, cada passo é carregado de simbolismo e cálculo; a diplomacia opera como arquitetura — erguendo ou desmontando alicerces conforme a solidez dos acordos emergentes.
Assinado,
Marco Severini — Espresso Italia





















