Por Marco Severini — Em imagens difundidas pela imprensa oficial de Pyongyang após o encerramento do Congresso do Partido dos Trabalhadores, o líder norte-coreano Kim Jong-un aparece lado a lado com sua filha, presumida Kim Ju-ae, ambos trajando a mesma jaqueta de couro preta. O conjunto de fotografias — replicado em circuitos internacionais — funciona, no dizer de analistas, como um movimento deliberado no tabuleiro político do regime.
Ao examinar esse gesto teatral sob uma lente de Realpolitik, constata-se que não se trata apenas de um efeito estético: é um símbolo cuidadosamente calibrado de poder e continuidade. Para observadores citados pela AFP, a jaqueta carrega um peso semântico que ultrapassa a moda, remetendo à imagem do líder como garantidor da segurança nacional e da prosperidade futura. Que a mesma peça tenha sido usada pela filha torna o sinal quase codificado: uma peça do mesmo manto, um possível hereditar de autoridade.
Especialistas consultados pela imprensa internacional — entre eles Lim Eul-Chul — interpretam o episódio como parte de uma campanha de legitimação. Koh Yu-hwan, professor emérito da Dongguk University, observou ao Financial Times que a sequência de aparições públicas com tratamento protocolar semelhante indica que Kim Ju-ae vem sendo colocada na posição de figura secundária mais elevada do regime, como se fosse a segunda peça mais importante no clube de comando.
Do ponto de vista institucional, a tarefa permanece complexa: como assinala Kim Yeoul-soo, do Korea Institute for Military Affairs, convencer uma sociedade num Estado fortemente masculinizado e marcado por dinâmicas patrimonialistas a aceitar uma mulher como chefe suprema exigirá um trabalho de longo prazo. Para alguns analistas, o desfecho desse processo pode ser apresentado oficialmente somente no próximo Congresso do Partido, quando a jovem terá 18 anos — cenário que desenharia uma sucessão formal e um redesenho sutil das linhas de poder.
O repertório público de Kim Ju-ae não é novo. Desde que as imagens da filha emergiram pela primeira vez em novembro de 2022, ela acompanhou o pai em ocasiões de alto simbolismo estatal — testes de mísseis, visitas protocolares, e a recente viagem a Pequim. Em janeiro, os meios oficiais também registraram sua ida ao mausoléu familiar em Kumsusan, reforçando a narrativa dinástica: entre pai e mãe, a jovem foi retratada no centro do sacro espaço memorial do regime.
Em Seul, parlamentares referiram avaliações de inteligência indicando que o anúncio oficial da sucessão poderia estar-se aproximando. Relatos da imprensa sul-coreana que citam fontes governamentais, como o jornal The Chosun Daily, apontaram que os serviços de inteligência locais consideram plausível a nomeação de Kim Ju-ae como futura líder.
Do ponto de vista estratégico, a imagem da filha trajando a mesma jaqueta de couro do pai funciona como um movimento em duas frentes: internamente, busca-se acostumar a população à ideia de continuidade dinástica; externamente, envia-se à comunidade internacional um sinal de estabilidade calculada — ou, ao menos, de um plano de transição arquitetado. No tabuleiro regional, esta é uma jogada que requer acompanhamento atento: a tectônica de poder na Península permanece sensível, e cada gesto protocolar pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.
Enquanto o mundo observa, Pyongyang parece trabalhar, peça por peça, na construção de um cenário que torne a eventual transição aceitável e funcional para os interesses do regime. Em curto prazo, a equivalência de figurino entre pai e filha é um lembrete claro de que, na diplomacia do símbolo, cada detalhe é um lance estratégico.






















