Por Marco Severini – Em um movimento que reafirma a centralidade do comando na península coreana, Kim Jong-un foi reeleito como secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte durante o quarto dia do congresso partidário, segundo a agência estatal KCNA. A confirmação ocorreu “em conformidade com a vontade incrollável e o desejo unanime de todos os delegados”, informou a agência oficial.
No discurso de abertura do congresso, há poucos dias, Kim Jong-un voltou a enfatizar a prioridade do regime: melhorar os padrões de vida da população apesar das severas restrições econômicas e do cerco sancionatório que pesa sobre o país. “Hoje, o nosso partido se encontra diante de tarefas históricas difíceis e urgentes: promover o desenvolvimento econômico e elevar o nível de vida do povo, e transformar todas as esferas da vida estatal e social o mais rapidamente possível”, declarou o líder, reafirmando um roteiro interno orientado à estabilidade e à legitimidade política.
É relevante, do ponto de vista analítico, recordar que no congresso anterior, em 2021, Kim fez uma admissão incomum para os padrões da propaganda estatal — reconheceu erros “em quase todos os campos” do desenvolvimento econômico. Essa autocritica controlada serviu, então, para recalibrar expectativas internas e reordenar prioridades do regime.
A reeleição de Kim Jong-un não é apenas um ato interno; tem implicações estratégicas regionais. Beijing reagiu rapidamente: Xi Jinping enviou congratulações a Pyongyang, discurso que sublinha confiança e apoio ao líder norte-coreano, reforçando a narrativa de amizade entre os dois governos. Esta interação entre Pyongyang e Pequim pode ser lida como um reposicionamento tático na “tectônica de poder” da Ásia Oriental — um redesenho de fronteiras de influência que, embora invisível, altera o equilíbrio no tabuleiro geopolítico.
Do ponto de vista da estabilidade, a recondução de Kim fortalece os alicerces institucionais do regime ao mesmo tempo em que sinaliza continuidade de políticas internas e externas. Para observadores externos, a mensagem é dupla: firme centralização do poder doméstico e manutenção de canais privilegiados com aliados estratégicos. Em termos de Realpolitik, trata-se de um movimento que busca garantir previsibilidade do lado de Pyongyang sem, necessariamente, oferecer concessões imediatas no diálogo nuclear ou econômico.
Como analista, vejo nesta reeleição um ato calculado para consolidar autoridade antes de eventuais fases de negociação internacional. O gesto de Xi Jinping funciona como um selo diplomático que suaviza o isolamento e amplia a margem de manobra de Pyongyang no cenário regional. A estabilidade desejada por capitais e chancelerias passa agora por uma nova configuração, onde voz e decisão concentram-se mais do que nunca na figura de Kim Jong-un.
Em resumo, a confirmação de Kim como secretário-geral do Partido dos Trabalhadores é, ao mesmo tempo, um sinal interno de unidade e um lance estratégico no amplo tabuleiro de xadrez internacional. As próximas movimentações — econômicas, sociais e diplomáticas — dirão se essa reafirmação de poder traduz-se em reformas tangíveis ou em uma reafirmação conservadora do status quo.






















